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Salvador vive dia de caos com alagamentos e engarrafamentos
Por: Camila Vieira
A chuva e a falta de estrutura tornaram impossível trafegar na cidade
Salvador iniciou a semana completamente alagada. A chuva que atinge a cidade desde sábado e que se intensificou na manhã de ontem deixou diversos pontos de alagamento e o trânsito lento em vários locais da capital baiana. Engarrafamentos quilométricos e carros quebrados tomaram conta da região do Iguatemi e das avenidas Bonocô, Antonio Carlos Magalhães e Paralela. Na orla, o tráfego de veículos também foi prejudicado, com retenção nos bairros do Rio Vermelho e da Pituba. Durante toda a manhã, parecia impossível trafegar pelas principais vias da cidade que só tiveram a água escoada e o trânsito melhorado no início da tarde.


Logo por volta de 8h, na Avenida Vasco da Gama, sentido Rio Vermelho, em frente ao supermercado Extra, o trânsito ficou completamente congestionado. Poças de água impediam que motoristas transitassem e o tráfego ficou praticamente parado durante quase uma hora. Em um trecho próximo ao Colégio Estadual Antonio Carlos Magalhães, ainda na Vasco da Gama, sentido Dique do Tororó, a água tomou toda pista e três carros ficaram submersos.


O dono de um dos veículos, o comerciante Mário Leal, 36 anos, ficou duas horas debaixo de chuva aguardando que o reboque chegasse para levar o carro. “É um absurdo. Toda vez que chove temos que passar por essa situação. Além de transtornos, ainda temos que arcar com os prejuízos causados pelo temporal. Os poderes públicos precisam criar mecanismos para que a cidade passe a suportar a chuva”, disse Leal, que perdeu a manhã de trabalho por causa dos problemas com o veículo.


A realidade não foi diferente na Avenida Bonocô. Por volta das 8h, depois de duas horas seguidas de chuva forte, um morro deslizou, em frente ao condomínio Pedra do Vale, soterrando três carros e impossibilitando a saída e entrada de moradores. Segundo populares, a Codesal e o Corpo de Bombeiros só compareceram ao local três horas depois do ocorrido. Ao longo da avenida, o trânsito ficou totalmente engessado, diversos veículos quebraram e ficaram parados no acostamento. Uma enorme fila de ônibus se formou logo no começo da Bonocô.


Transporte - Quem esperava pelo transporte coletivo para chegar ao trabalho teve que ligar e avisar que chegaria atrasado. Assim fez a empregada doméstica Altamira Sacramento, 43 anos, que aguardava em um dos pontos da Avenida Bonocô um ônibus com destino à Avenida Paralela, local onde trabalha. “Toda vez que chove é esse inferno. Hoje (ontem) a cidade está toda parada e todo mundo vai perder a manhã de trabalho. Avisei a minha patroa que aqui está uma agonia e que não vou chegar tão cedo”, disse a doméstica.


Os engarrafamentos também tomaram conta da BR-324, no Acesso Norte, e da Avenida Paralela, no percurso entre o Posto 1 e o Centro Administrativo da Bahia (CAB). Neste trecho, o congestionamento chegou a 4km. Os problemas não pararam por aí. Na Rua Marques de Leão, o letreiro de um banco caiu impedindo o tráfego de veículos no local. De acordo com a Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET), junto com o letreiro, alguns fios foram partidos e, para a retirada do material, é necessário modificar o trânsito, por isso, o órgão recomenda aos motoristas que evitem o trânsito no local e que peguem vias alternativas como a Avenida Centenário. Até o meio-dia, a SET havia registrado 15 acidentes em Salvador. Duas pessoas ficaram feridas, sem gravidade.


***


Ônibus ilhado na Paralela


Mais uma vez, a rua de acesso ao condomínio Amazônia, na Avenida Paralela, ficou totalmente alagada. O nível da água subiu tanto que o ônibus da empresa Dois de Julho, que fazia a linha Terminal da França, não conseguiu passar. Os cerca de 30 passageiros, motorista e cobrador permaneceram dentro do transporte coletivo durante duas horas, aguardando o socorro. As vítimas da chuva foram obrigadas a sentar no corrimão do veículo, parado no meio da lagoa, e esperar pelo resgate que foi prestado por um caminhão da Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET).


Um carro pequeno, de um morador do condomínio, também ficou submerso e só foi removido no fim da manhã. Para José da Silva, 49 anos, que reside no local há 15 anos, é preciso tomar alguma providência para evitar que o problema ocorra. “Moro aqui há muito tempo e já vi esta cena se repetir diversas vezes. Não é possível que ninguém tome providências”, esbravejou o morador. O alagamento impediu que moradores entrassem e saíssem pelo acesso principal. Foi necessário criar uma saída pela lateral do condomínio para que as pessoas transitassem.


Os pedestres que precisaram fazer a travessia para o outro lado da Avenida Paralela tiveram que caminhar pelo meio da pista. A calçada que dá acesso à passarela ficou completamente encoberta pela água. A moradora do Edifício Rio Arauá, Fernanda Gomes, 16 anos, ficou impossibilitada de chegar ao colégio, no Imbuí. “Quando resolvi ir para escola, vi que a pista estava toda tomada pela água e não dava para atravessar. Só me restou voltar para casa e esperar a água baixar”, disse a jovem.


***


Manifestação de moradores


Como se não bastassem os congestionamentos provocados pela chuva, moradores da Rua da Adutora, próximo à Estação Mussurunga, fecharam a Avenida Paralela, sentido centro, por quatro horas. A atitude em protesto aos transtornos causados pelo temporal, nas diversas casas da rua, deixou a Paralela completamente parada. Enquanto motoristas esperavam o desbloqueio do tráfego, moradores reclamavam a perda de móveis e eletrodomésticos. Indignados com o descaso dos poderes públicos, eles queimaram pneus, pedaços de madeira e os próprios colchões encharcados pela chuva.


“Eu perdi tudo que tenho na minha casa. Não agüento mais viver nesse inferno”, disse a técnica de enfermagem Claudiana Conceição Santana, 28 anos, que mora na rua há 11. Segundo ela, é a quinta vez este ano que os moradores protestam por melhores condições de habitação. “Toda vez dizem que vão asfaltar e fazer a rede de esgoto, mas nunca resolvem nada. Todo mundo aqui vive tendo prejuízo. Somos trabalhadores e não podemos ver a chuva levar tudo o que temos”, disse a moradora, que levou um empurrão de um policial militar, de prenome Júlio.


A Avenida Paralela foi tomada por cerca de 200 pessoas. Entre eles estava o encarregado de pedreiro Jorge Novaes, 56 anos, que reside na Rua da Adutora há 21 anos. Ele conta que ao longo desse tempo já perdeu duas geladeiras por causa dos alagamentos provocados pela chuva. “Hoje (ontem), quando acordei, a água estava acima do meio da geladeira, sem contar a lama que invadiu toda a minha casa. Nós precisamos da atenção dos poderes públicos. Nossa situação é urgente”, esbravejou o morador.


Nenhum representante da prefeitura esteve no local para negociar com os moradores. O trânsito só foi desbloqueado depois de uma negociação feita com a Polícia Militar. Enquanto moradores protestavam, usuários do transporte coletivo aguardavam na Estação Mussurunga a passagem dos ônibus. “Eu estou aqui há duas horas e até agora não passou um veículo sequer. Eles resolvem protestar e somos nós que sofremos as conseqüências”, disse a comerciante Lurdes Santana, 36 anos.






Caos anunciado
Salvador pára por quatro horas devido à chuva e três pessoas morrem, num reflexo do abandono da cidade

Jony Torres
Mais uma vez a história se repetiu: bastaram quatro horas de chuva para Salvador entrar em colapso. Ontem pela manhã, a água tomou conta das principais ruas e avenidas, deixando o trânsito praticamente parado em todas as regiões da cidade. O acidente mais grave ocorreu no bairro de Castelo Branco, onde três pessoas de uma mesma família morreram soterradas após o deslizamento de um barranco. O prefeito João Henrique, a população não viu, mas vários superintendentes e técnicos de órgãos municipais foram convocados para tentar explicar por que a terceira maior cidade do Brasil não consegue manter a rotina quando chove além da média.


A Coordenadoria de Defesa Civil de Salvador (Codesal) registrou até o fim da tarde de ontem, 182 ocorrências. A maioria dos chamados era por causa de deslizamentos de terra (145), alagamentos (57) e desabamentos (18). O indíce pluviométrico registrado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) chegou aos 77mm nas últimas 24 horas, mas as estações meteorológicas da prefeitura espalhadas por cinco pontos da cidade anotaram até 156mm, apenas nas 12 primeiras horas da segunda-feira. O previsto era chover 119mm durante todo o mês de novembro.


Enquanto milhares de pessoas aproveitavam a melhora do tempo no período da tarde para retirar a lama de dentro de casa e recolher o pouco que sobrou dos móveis, roupas e eletrodomésticos depois de mais uma enxurrada, a prefeitura convocou uma entrevista coletiva. Na sede da Codesal, superintendentes e coordenadores municipais tentaram explicar por que a cada chuva a situação se repete, e a paisagem da cidade mais lembra um igarapé, onde carros precisam enfrentar extensos alagamentos, e os deslizamentos já causaram sete mortes e 19 vítimas, somente este ano.


Preocupação tardia - O excesso de chuva foi mais uma vez o culpado, pelo menos na visão dos homens de confiança do prefeito João Henrique. Pouco se falou sobre a falta de resultados positivos das obras emergenciais anunciadas pelo Executivo, mas pelo menos a população ficou sabendo que hoje, quase 24 horas depois, o prefeito vai visitar o local onde pai, mãe e filho morreram sufocados debaixo de toneladas de terra que deslizaram de um barranco, numa das centenas de invasões que nascem no descontrole demográfico que aflige a capital baiana há décadas.


O coordenador da Defesa Civil, Francisco Costa, apresentou dados e estatísticas para provar o que todo mundo viu: a chuva foi muito além do esperado. Ele disse que pouco podia fazer diante de tanta água numa cidade com mais de 433 áreas de risco e onde surgem todos os dias novas ocupações irregulares. “Nós fazemos um trabalho educativo junto à população que vive em locais perigosos, mas é muita gente, cerca de 60% dos habitantes de Salvador moram em pontos degradados”, disse o superitendente.


Segundo os dados apresentados pelo superintendente de Urbanização da Capital (Surcap), Adriano Peixoto, até agora a administração atual está enfrentando o problema das encostas com 30 obras concluídas, 25 em andamento e dez em processo de licitação. Na operação, foram investidos R$6 milhões e o Ministério da Integração Nacional já colocou à disposição mais R$1,5 milhão para tocar novas intervenções. Mas, como ele mesmo admitiu, não foi o suficiente. “Este volume de chuva causaria transtorno em qualquer grande cidade do mundo”, declarou Adriano.


A causa dos alagamentos que tanto irritam os motoristas e prejudicam todas as atividades, segundo o superintendente de Manutenção e Conservação da Cidade (Sumac), Wellignton Pereira Neto, é a defasagem do sistema de drenagem do município.


Ele afirmou que a rede de captação de água de chuva não acompanhou o crescimento demográfico dos últimos 20 anos e não vê solução antes dos próximos 15 anos. “Nós antecipamos a Operação Chuva e fizemos a limpeza dos canais e bocas-de-lobo, mas há um subdimensionamento do todo o sistema”, concluiu Neto. Para sorte da população que vive em áreas de risco, o Instituto de Meteorologia prevê que a chuva continua hoje com intensidade reduzida em Salvador.
Fonte: Correio da Bahia


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