Muhammad Ali O tratamento da doença de Parkinson, que aflige mais de 4 milhões de pessoas no mundo todo, parece estar caminhando para a cura. Um estudo publicado na revista Nature, feito em ratos, demonstrou o efeito inovador e inesperado de uma droga para hipertensão, a isradipina, cujo nome comercial no Brasil é Lomir, que bloqueia canais de cálcio dos músculos das paredes dos vasos arteriais, fazendo-os relaxar e, assim, reduz a pressão arterial.
As células envolvidas na doença de Parkinson são as produtoras de dopamina – um neurotransmissor – nos chamados núcleos da base, um agrupamento de neurônios na profundidade do cérebro. Com o tempo, e por um motivo não totalmente conhecido, essas células envelhecem mais rápido que os outros neurônios e morrem. A falta de dopamina no cérebro faz com que os movimentos automáticos, isto é, movimentos que praticamos sem planejar, como o levantar da cadeira e caminhar, fiquem muito lentos. Esses movimentos são controlados pelos núcleos da base e, com a morte dos neurônios, deixam de ser automáticos e precisam ser reprogramados a todo instante. Por isso, ficam lentos. Associado a isso, o indivíduo passa também a apresentar rigidez nos músculos do corpo e tremor.
Um grupo de pesquisadores da Nothwestern University de Illinois chefiado por James Surmeier descobriu que, quando jovens, esses neurônios preferem mandar sinais elétricos através de seus axônios (os corpos dos neurônios) até os locais que liberam dopamina usando canais de sódio. Quando envelhecem, passam a utilizar um tipo específico de canal de cálcio, o que provoca a sua morte, pois o acúmulo de cálcio dentro da célula é letal. Como a isradipina bloqueia esse mesmo canal de cálcio letal para esses neurônios, Surmeier imaginou que a utilização da droga talvez obrigasse o neurônio a voltar a utilizar os canais de sódio para liberar a dopamina. No laboratório, o procedimento deu certo. Culturas de neurônios que receberam a droga aumentaram sua sinalização através de canais de sódio, como se tivessem rejuvenescido.
Os cientistas, então, decidiram implantar uma cápsula sob a pele de ratos que liberava altas quantidades do medicamento diariamente. Uma semana depois, os ratos receberam uma droga que provoca o surgimento da doença de Parkinson agudamente, chamada MPTP. Após cinco semanas, os ratos que receberam o isradipina não apresentaram a doença de Parkinson, estavam completamente normais. Os que não receberam apresentaram sinais evidentes da doença.
Para corroborar, um estudo em pacientes hipertensos que tomam isradipina mostrou uma incidência de doença de Parkinson de 30% a 50% menor do que a observada em pessoas que não tomavam o remédio.
Os pesquisadores já convocaram um grupo de parkinsonianos, para saber se eles tolerariam uma dose dez vezes maior do que a utilizada para tratar hipertensão, equivalente à dose utilizada nos ratos, e se vão melhorar da doença. A droga tem efeitos colaterais mesmo quando utilizada em baixas doses, portanto, os resultados animadores em ratos ainda precisam ser validados em estudos com grande número de humanos.
A terapia gênica está sempre em moda, principalmente no tratamento das doenças degenerativas neurológicas. A doença de Parkinson foi uma das primeiras a ser tratadas com implante de células jovens. Essa prática tem décadas de história nessa doença. Um grupo da Universidade de Harvard, porém, chefiado por Richard Sidman, inovou injetando diretamente no cérebro de macacos com Parkinson células-tronco neuronais retiradas de cérebro de fetos humanos com 13 semanas de gestação, que foram naturalmente interrompidas.
Um mês depois, os macacos começaram a andar e a se mover quase normalmente. Após quatro meses, o efeito começou a desaparecer, porém, os macacos continuavam melhor do que antes de receberem as células-tronco. Os cientistas acreditam que isso deva ocorrer porque o sistema imune do macaco passou a atacar as células humanas, consideradas estranhas. Agora, iniciaram um estudo semelhante, mas com adição de inibidores da imunidade.
Após a morte, esses macacos tiveram os cérebros examinados e aí veio a maior surpresa. As células-tronco espalharam-se no cérebro todo, alojando-se nas estruturas que produzem dopamina – e não apenas onde havia células lesadas no Parkinson – e a produção de dopamina compensou a falta dela nos gânglios da base.
Parkinson é a doença neurológica degenerativa mais comum depois do Alzheimer. Em geral, afeta tanto homens quanto mulheres após os 40 anos. A descoberta de sua cura ou prevenção será sem dúvida uma conquista da ciência humana para a próxima década.
Situação de Calheiros se complica
por Jobson Lemos Batista
Depois de reportagem, oposição ganha força e decisão quanto ao futuro do presidente do Senado pode sair apenas na próxima semana A vida do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), parecia resolvida. Mas a reportagem exibida pelo Jornal Nacional na quinta-feira, 14, colocou o senador de volta à linha de tiro. O Jornal Nacional questionou a veracidade das notas fiscais apresentadas por Renan para justificar os pagamentos a sua filha. Calheiros havia informado que vendera bois e apresentou as notas para comprovar o negócio.
O Conselho de Ética estava pronto para arquivar o processo. Mas a situação mudou. Diante da dúvida incitada pelas novas informações, Calheiros apresentou novos documentos ao conselho. A oposição pediu perícia. Os que apóiam o presidente queriam pressa, mas concordaram. O relator, Epitácio Cafeteira (PTB-MA), ameaçou renunciar caso seu parecer não seja votado.
A próxima reunião dos membros da Comissão de Ética é terça-feira, 19. Incomodado com toda a situação e as novas complicações nas quais se vê envolvido, Calheiros se limitou a dizer que não deveria questionar as decisões do conselho e nem tampouco a ética do jornalismo. A reunião de hoje prossegue, tensa.
Fonte: Carta Capital
ética que vem do pasto
Conselho se esforça para poupar o presidente do Senado, enrolado com lobista, bois e recibos falsos
Otávio Cabral
Wilson Dias/ABR
O Conselho de Ética do Senado deu na semana passada uma valiosa contribuição para consolidar a péssima reputação da classe política brasileira. Sem se preocupar em ao menos fazer de conta que pretendia investigar alguma coisa, o senador Epitácio Cafeteira, do PTB do Maranhão, concluiu que o presidente do Congresso, Renan Calheiros, não praticou atos que ferissem o decoro parlamentar ao utilizar os serviços de um lobista da empreiteira Mendes Júnior para pagar as despesas de uma filha durante quase dois anos. Cafeteira também não viu nada de mais no fato de esses serviços incluírem o empréstimo de um apartamento para encontros particulares e o uso do escritório da empreiteira como se fosse uma tesouraria de Renan Calheiros. O senador Epitácio também não detectou conflito algum no fato de o presidente do Congresso manter relações de amizade com um empreiteiro do calibre de Zuleido Veras, acusado de corrupção, formação de quadrilha e fraude em licitações. Se aprovada, a decisão de Cafeteira, além de constranger os políticos sérios, cria um novo e vergonhoso patamar ético no Parlamento. Qualquer senador pode sentir-se autorizado a receber um empreiteiro em sua casa, pedir-lhe um favor financeiro e, depois, compensá-lo com a apresentação de uma emenda ao Orçamento. Estará simplesmente seguindo a jurisprudência criada pelo senador Cafeteira.
"A decisão de arquivar o caso ocorreu antes de a investigação começar. É um precedente perigoso, um convite à quebra de decoro", protestou o senador Demostenes Torres, do DEM de Goiás, um dos parlamentares que se insurgiram contra o relatório de Cafeteira. O que se viu no Conselho de Ética foi a montagem de uma farsa para absolver Renan Calheiros sem nenhuma investigação, e ela só não se concretizou ainda porque o custo político poderia ser impagável mesmo para o padrão daqueles senhores. Uma reportagem do Jornal Nacional, da Rede Globo, fez o que a comissão não se interessou em fazer. Os jornalistas tiveram acesso aos recibos que o senador Calheiros apresentou para justificar a origem dos recursos que, segundo ele, foram usados para pagar a pensão da filha. Renan não conseguiu provar que o dinheiro entregue pelo lobista Cláudio Gontijo à jornalista Mônica Veloso, mãe de sua filha, saiu de suas contas pessoais e tenta convencer que tinha condições financeiras de fazer os pagamentos. Para comprovar pelo menos essa parte de sua versão, o senador apresentou 64 recibos atestando a venda de 1 700 cabeças de gado, que lhe rendeu cerca de 1,9 milhão de reais. Os documentos se assemelham a uma versão rural da famosa Operação Uruguai – a fracassada armação feita pelo ex-presidente Fernando Collor antes de seu impeachment.
Desde o início da semana, a operação Alagoas do presidente do Congresso já chamava atenção pelos valores envolvidos nas transações. Renan Calheiros declarou ganhos de 1,9 milhão de reais com a venda de gado nos últimos quatro anos, transformando o senador em um fenômeno da pecuária moderna. O estado de Alagoas está classificado como área de risco da febre aftosa e não pode vender 1 quilo de carne para além de suas fronteiras. Isso, é claro, fez o preço do boi cair e a produção minguar na região, exceto para o rebanho de Renan Calheiros, que conseguiu fazer negócios a valores bem acima dos de mercado. De acordo com as declarações de renda do senador, a maior parte de sua criação foi vendida a empresas de Maceió e até a uma da Paraíba, contrariando as determinações de segurança sanitária. A reportagem procurou os compradores dos bois de Renan Calheiros e descobriu surpreendentes indícios de fraude. A empresa Carnal, segundo documentos assinados pelo senador, comprou 127.000 reais em gado de sua fazenda. Em entrevista, o proprietário da empresa, João Teixeira dos Santos, diz que nunca fez nenhum negócio com o senador e que a empresa está desativada há tempos. Outra compradora do gado de Renan Calheiros, de acordo com os recibos assinados, é a empresa GF da Silva Costa. No endereço onde ela deveria funcionar mora uma família que nunca ouviu falar nem da empresa nem de seu dono.
O outro lado da venda de gado: o gerente da fazenda de Calheiros disse ao Jornal Nacional que o rebanho é menor do que o anunciado e os "compradores" garantem nunca ter feito negócio com o senador
Os recibos parecem ter sido produzidos em série, num arquivo de computador. São assinados pelo senador Renan Calheiros e foram entregues ao Conselho de Ética acompanhados, em sua maioria, dos respectivos comprovantes de depósitos bancários. Entre as empresas compradoras do gado do senador, duas já foram multadas pela Secretaria da Fazenda de Alagoas por extravio de notas fiscais. Renan Calheiros disse que tem como comprovar que as transações efetivamente aconteceram e prometeu apresentar mais documentos. "Estão querendo sujar o nosso nome", protestou José Marcolino Neto, dono do supermercado Manaíra, em João Pessoa, que teria comprado 45 cabeças de gado do senador. "Desconheço esse negócio e esse recibo." Segundo Renan Calheiros, se houve algum problema nas vendas, a responsabilidade é do veterinário Gualter Peixoto, que cuida de suas fazendas em Alagoas. Peixoto não é um veterinário qualquer. Ele também é o chefe do setor do Vigilância Sanitária da prefeitura de Murici e tem como patrão Renan Calheiros Filho, o prefeito, filho do senador. O veterinário-marchand desapareceu na semana passada. Em Murici, funcionários da prefeitura informaram que ele dá expediente apenas na terça-feira, do meio-dia às 6 da tarde. As informações agropecuárias de Renan Calheiros foram desmentidas pelo próprio gerente de sua fazenda, Everaldo de Lima Silva. Segundo ele, pastam nas fazendas de Renan 1 100 bois, 600 a menos do que informou o senador.
A VEJA, Mônica Veloso confirmou que os pagamentos eram feitos pelo lobista em dinheiro
Na sexta-feira, o Conselho de Ética do Senado, que estava preparado para arquivar o caso, decidiu solicitar uma perícia nos documentos apresentados por Renan Calheiros. Foi o penúltimo ato de uma encenação que estava marcada para terminar naquele dia e que só não acabou por causa das novas suspeitas de fraude. Foi tudo tão escandalosamente armado que, nas últimas duas semanas, coube ao senador Renan Calheiros – ele mesmo, o investigado – a tarefa de avalizar a indicação dos membros do Conselho de Ética, discutir com aliados o nome do relator e usar sua influência para controlar o processo desde o início. Ninguém parecia constrangido em testemunhar Renan usando o cargo de presidente do Congresso para promover as articulações de sua própria absolvição. Na tarde de 30 de maio, por exemplo, cinco dias depois de publicada a primeira denúncia de que o lobista da Mendes Júnior pagava suas despesas pessoais, Renan se reuniu com o líder do governo, Romero Jucá, do PMDB, e com a líder do PT, Ideli Salvatti, para definir o nome do presidente do recém-indicado Conselho de Ética. Os dois partidos são donos das maiores bancadas e, por isso, têm a prerrogativa de indicar o presidente e o relator da comissão. Jucá – um raro exemplo de ética, principalmente quando o assunto é fazenda – sugeriu o nome do petista Sibá Machado para a presidência. Renan, de início, não gostou. Na cabeça do senador, por trás das denúncias havia uma conspiração de petistas querendo sua derrocada, e Sibá não estava na lista de seus convivas. Ideli Salvatti garantiu que Sibá faria tudo o que a cúpula do PT determinasse. Renan concordou.
Jader Barbalho: o conselheiro que foi obrigado a renunciar
Definido o nome do presidente, passou-se à etapa seguinte, a escolha do relator, missão para a qual os governistas já tinham o nome do senador Epitácio Cafeteira como principal candidato. Ele possuía o perfil apropriado para assumir o papel de impostor. Renan, de novo, estava à frente do processo de escolha. Ele só deu sinal verde à indicação de Cafeteira depois de ouvir do aliado José Sarney que o colega maranhense era confiável e faria tudo o que fosse necessário para absolvê-lo rapidamente, mesmo que para isso, como se viu, precisasse apresentar um suspeitíssimo relatório, sem ouvir testemunhas, sem periciar documento, formando seu juízo sobre o caso sentado numa privada. Nem a divulgação dos recibos suspeitos impediu o senador de continuar a vergonhosa articulação. Renan passou a madrugada de quinta para sexta-feira ao telefone. Um de seus principais interlocutores foi o deputado Jader Barbalho, que renunciou em 2001 para não ter o mandato cassado. A notícia atrapalhou os planos de encerrar o caso na sexta-feira. Pegaria mal. Combinou-se então um novo ato, acertado no gabinete do senador Marconi Perillo, do PSDB. O Conselho, com o aval da oposição, aceitaria prorrogar em dois dias o início da votação do relatório de Cafeteira para que os recibos fossem periciados e também tomados os depoimentos do lobista Cláudio Gontijo e do advogado de Mônica Veloso (ela, que é a principal testemunha, não foi convidada). Mas esqueceram-se de combinar a nova versão com o senador Epitácio Cafeteira, que, radical, anunciou que renunciaria se houvesse o adiamento. A renúncia de Cafeteira era tudo que Renan Calheiros não queria. A sorte do senador é que o celular de Cafeteira tocou durante a sessão. Era sua esposa, Maria Isabel, pedindo que ele reconsiderasse. Ele reconsiderou. A votação do relatório com postulados éticos de Cafeteira está marcada para terça-feira.
Fonte; Veja Online
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