| Por: Renata Moura, Josie Jeronimo e Mariana Santos | | Cada deputado custa R$ 1 milhão por ano ao Congresso | Durou 61 dias a convocação extraordinária mais cara dos últimos anos. Consumiu cerca de R$ 100 milhões em apenas 15 sessões de votação. O eleitor, entretanto, terá uma certeza: não vai mais pagar nem um tostão caso os congressistas precisem arregaçar as mangas para fazer aquilo que não fizeram durante o ano legislativo. Mas levando em conta os numerosos benefícios recebidos pelos parlamentares, falar em tostões parece provocação. Cada deputado brasileiro custa R$ 1,14 milhão aos cofres públicos ao ano. Com o descrédito da população por causa de sucessivos escândalos de corrupção, o Congresso teve de abrir mão de algumas regalias. Aprovou até o projeto de lei que reduz o recesso parlamentar de 90 para 55 dias. Necessária para compensar a paralisação provocada pelas denúncias de corrupção, a convocação de dois meses foi endossada pelos presidentes Aldo Rebelo (PCdoB-SP), da Câmara, e Renan Calheiros (PMDB-AL), do Senado. A justificativa era dar rapidez às investigações do mensalão, mas o rendimento das frentes que apuravam as denúncias não foi lá o que se esperava.
O Conselho de Ética tentou nas duas últimas semanas andar em passos um pouco mais largos, mas a convocação terminou sem que nenhum deputado com o mandato pendurado passasse pelo crivo do plenário. As CPIs do Correio e dos Bingos também não aceleraram o suficiente.
A votação do Orçamento – mais uma justificativa apresentada para a convocação – foi outro vexame. Da pretensiosa pauta de mais de 90 itens apresentada pelo presidente da Câmara, pouco mais da metade foi discutida no plenário. Entre votações destacam-se o fim da verticalização, que permite alianças partidárias diferentes na esfera nacional e estadual, e a criação do Fundo de Manutenção para a Educação Básica (Fundeb).
Espetáculo que o Rio merecia
Maior show da história dos Rolling Stones levou ao delírio uma multidão em Copacabana. Difícil haver outra noite assim com um cenário tão bonito por natureza
:: Augusto Nunes
O Gritos, uivos, berros, urros – todos os sons universais da alegria, entoados por milhões de vozes, emergiram das areias de Copacabana na noite deste sábado. O coro dissonante e comovente saudou a aparição da maior banda de rock da história. Os Rolling Stones estavam no Rio pela terceira vez.
Talvez fosse a última, suspeitou a multidão. Os míticos roqueiros pareceram concordar. Cúmplices da platéia, decidiram que 18 de fevereiro de 2006 seria inesquecível. E nunca houve algo parecido na vida do Rio. Nem haverá. Eternos e modernos, os sessentões Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts mostraram-se também atemporais. Jagger esbanjou a agilidade felina de um Nureyev do rock. Richards revogou os vincos e rugas do rosto com a expressão debochada do garotão briguento. Wood foi o esplêndido coadjuvante de sempre. Charlie Watts provou que cabelos nevados combinam até com bateria. Os Stones foram exemplarmente Stones.
A platéia multifacetada reuniu três gerações. A turma acima de 40 cantava com o olhar de quem sabe traduzir a letra. Os muito jovens viajaram a bordo do som. Devotos dos 15 aos 40 anos agitaram-se com a animação de figurantes voluntários. Nunca houve uma noite assim também porque jamais haverá cenário igual. A moldura incomparável incluiu o Pão de Açúcar, a curva deslumbrante de Copacabana, as águas da Guanabara, as areias iluminadas e luminosas da praia imensa. É um cenário que os europeus começaram a conhecer em 1500. Quinhentos anos passados, descobriu-se que fora reservado a um show dos Rolling Stones. Um show com um milhão na platéia.
A banda merecia essa apresentação no Rio. O Rio merecia esse espetáculo da banda. Os sons do Carnaval foram interrompidos durante algumas horas para que todos ouvissem os acordes dos quatro ingleses geniais. Foi uma justa reverência. O Carnaval nunca morrerá. Mas é improvável que a cidade receba de novo os Rolling Stones. Se foi o último show, pouco importa. Este 18 de fevereiro não será apagado da memória do Rio.
Duas horas de rock e magia
Repertório de clássicos agradou aos fãs. Furtos e engarrafamento foram o senão
Do alto dos 62 anos, corpo magricelo e rebolado de garoto de 20, o invertebrado Mick Jagger e seus companheiros de estrada cumpriram a promessa: fizeram uma apresentação histórica na praia de Copacabana. Em duas horas de show, os Rolling Stones emocionaram cerca de dois milhões de fãs que se aglomeravam na areia para assistir ao que pode ter sido a última passagem do grupo pelo Brasil.
Em duas horas, os quatro integrantes da banda mostraram por que são eternos. Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts subiram ao palco às 21h50, de onde saíram por volta das 23h45. Abriram o show com ''Jumpin Jack Flash'', um dos clássicos dos Stones. O desfecho foi igualmente memorável: ''Satisfaction'', a música mais conhecida e esperada, levou a platéia ao delírio, com Mick Jagger vestindo uma camiseta com as cores do Brasil e o nome do ''Rio de Janeiro'' abaixo.
Entre a primeira e a última canção, o virtuosismo dos quatro músicos combinou-se com os superlativos da estrutura montada para abrigá-los. Mas os pequenos gestos adornaram a apresentação, considerada a maior da turnê ''A Bigger Bang''. Jagger cumprimentou o público com algumas palavras em português:
- Olá, Brasil! Tudo bem, galera? - saudou.
Também fez gracinhas:
- As mulheres daqui são lindas, han?
Os Stones tocaram ao todo vinte canções. Entre elas, ''Rough justice'', ''Honky tonky woman'', ''Simpathy for the Devil'', ''Start me up'', ''Brown Suggar''. Na bateria de Charlie Watts, em ambos os lados havia dois painéis acrílicos onde estava descrito todo o repertório.
O guitarrista Keith Richards também teve seu momento de glória ao cantar ''This place is empty''. O público devolveu com um grito de guerra: ''Olê, olê, Richard, Richard''. Mesma saudação do fim do show: ''Olê, olê, Stones, Stones''. Mas a banda levou mesmo o público ao delírio quando uma espécie de trenzinho levou os quatro, ao som de ''Miss You'', por meio de uma passarela com trilhos.
No palco, rock intenso. Fora dele, muitos conflitos. Mas nenhum incidente grave, segundo a Polícia Militar. Os furtos lideraram o ranking dos problemas na areia. Teve mais: poucos banheiros disponíveis provocaram filas intermináveis para os espectadores que ocuparam a areia, o calçadão e até o mar.
Minutos antes do show, policiais tiveram de agir com energia para conter um grupo de fãs que tentavam forçar o alambrado próximo ao palco. Pessoas detidas por porte e uso de drogas, desacato aos policiais, brigas e tentativa de invasão da área vip completaram a lista de senões da noite. Dez pessoas situadas próximas ao alambrado foram pisoteadas.
A multidão sofreu principalmente para chegar e sair de Copacabana. A promotora de Meio Ambiente, Denise Tarin, disse que ''todos os itens da legislação foram rasgados'' durante a movimentação para o show. As ruas do bairro ficaram intransitáveis. Os ônibus, abarrotados. Mas a noite já se consumara: inesquecível.
A turma que rolou na areia
Fãs chegam cedo, encaram o sol forte do verão carioca e andam quilômetros para garantir os melhores lugares perto dos ídolos
O capítulo brasileiro da história do rock, escrito no momento em que os Rolling Stones subiram ao palco, teve início nas areias de Copacabana. Cerca de 12 horas antes do megashow, o espaço de 60 metros entre a área vip e o cordão de isolamento da Polícia Militar já estava lotado. O improviso e a paciência foram os dois principais ingredientes para conquistar os melhores lugares não-reservados para os vips. Fanáticos como Edson Maia, de Brasília, foram capazes de viajar 20 horas até o Rio. Douglas Fernandes, 22 anos, veio de Curitiba com objetivo mais simples.
- Vim para conhecer o rock - resumiu o estudante.
Debaixo do sol do meio-dia, a multidão concentrada próximo ao palco estava tão apertada que a organização do evento teve de ceder alguns metros depois da cerca que separava a área vip. O termômetro ao lado do Copacabana Palace marcava 32 graus, e os fãs usavam guarda-chuvas para se proteger do sol forte.
- Em Porto Alegre, os verões também são quentes, mas haja protetor solar para agüentar o sol aqui depois de 24 horas de viagem - contou Daniel Biedzicki, enrolado numa bandeira da Grã-Bretanha - terra dos Stones. Desde as 9h - 13 horas antes do show principal - Daniel fincava o pé no pedaço de areia mais próximo ao palco.
A solução contra o calor veio no início da tarde. Um carro-pipa da Comlurb, usado em dias comuns para lavar as ruas, serviu para refrescar a multidão. Quando o jato d' água chegava ao público, a comemoração lembrava as torcidas organizadas no Maracanã.
De Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, veio um grupo de 17 uniformizados, quase todos no Rio pela primeira vez. Vencedores de promoção de uma emissora de rádio, os catarinenses perceberam que ganharam mais que o prêmio de assistir aos Rolling Stones.
- Ao chegar na cidade vi os casarões antigos. No caminho para Copacabana, a arquitetura passou a ficar mais recente. O Rio é pura história - admirava-se Juciany Ferreira, 26 anos. Ela levou, com os outros conterrâneos, mais de 15 horas para chegar à praia.
As caravanas vieram de todo o lugar, como Paulínia, no interior de São Paulo, ou de Inhumas, em Goiás. Daniel Rubens, professor de 35 anos, líder do grupo que veio da cidade goiana, explicou que a peregrinação para ver os Stones não foi a primeira. A paixão pelo rock é tanta que ele disse ser o responsável pelo único festival independente de rock de Inhumas.
Para comportar as caravanas do Brasil inteiro, o Aterro do Flamengo, com o trânsito interrompido, se transformou em um estacionamento onde, durante a tarde, havia uma fila de de cerca de 400 ônibus. De lá, um grupo de 50 pessoas da Guaratinguetá, São Paulo, seguia apressado a pé para Copacabana.
- Queremos pegar o melhor lugar para ver o Mick de pertinho - afirmou Letícia Rodrigues, 34 anos.
Mas foram os paulistanos da banda Dinossauros do Rock, cover dos Stones há 25 anos, que resumiram o espírito do público.
- Parabéns ao Rio, que está promovendo o maior show de rock da história. Nem em Woodstock houve algo parecido. E parabéns aos moradores de Copacabana pela paciência com o transtorno que sofreram - disse Wilson Conte Rodrigues, líder da banda.
O Conquistador do Carandiru
Começara uma rebelião no Carandiru, informou Pedro Franco de Campos, secretário de Segurança Pública de São Paulo. Do outro lado da linha, o governador Luiz Antônio Fleury ficou alguns segundos em silêncio. Mais que o motim irrompido na tarde de 2 de outubro de 1992, inquietava-o a data. No dia seguinte seriam escolhidos os novos prefeitos. Como reagiria o eleitorado a outra rebelião que escancarava os rombos no sistema carcerário? Decidiu que, se o desfecho da história fosse desfavorável ao governo, só no dia seguinte informações negativas seriam liberadas. Transmitiu a decisão ao secretário e passou-lhe a missão:
- Você cuida disso. E mantenha-me informado.
Campos, que o amigo Fleury chamava de "Pedrão", ligou para o coronel Ubiratan Guimarães. O comandante da Polícia Militar ansiava por ações belicosas. Solicitou ao secretário que o autorizasse a invadir o maior presídio da América Latina. Pedrão achou que a idéia fazia sentido.
- Avalie a situação e faça o que tem de fazer - determinou.
O Carandiru se transformara na mais perfeita tradução dos tumores que infestam as cadeias do Brasil. Um vulcão sempre à beira de erupções violentas.
Ali se amontoavam assassinos patológicos, delinqüentes de pouco risco, inocentes detidos por engano, gente que cumprira a pena e aguardava a hora da libertação. O motim fora desencadeado por uma briga entre prisioneiros.
Desorganizado e sem reivindicações claras, estava condenado a morrer de inanição. No início da invasão, resolveram render-se. Mas os inexperientes e assustados guerreiros do coronel tinham licença para matar.
Mataram 111 homens, desarmados e nus no momento do ataque. Os primeiros detalhes da chacina foram divulgados no dia seguinte, meia hora antes do fim da votação. Pedrão foi demitido. Fleury continua a jurar que soube da tragédia depois de consumada. Hoje deputado federal, não gostou de ter sido promovido pelo povo a "Marechal do Carandiru". O coronel Ubiratan sonha com esse posto há 13 anos.
Deputado estadual desde 1997, o conquistador de presídios comemorou nesta semana um surpreendente triunfo jurídico. Por 20 votos a dois, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou a sentença que o condenara, em 2001, a 632 anos de cadeia. Para os meritíssimos, o bravo oficial agira "no estrito cumprimento do dever". Cumprira ordens.
A Argentina demorou anos para sepultar a "lei de obediência devida", baixada pela ditadura militar para assegurar a impunidade de assassinos fardados e torturadores civis a serviço do governo. A Justiça paulista, invocando filigranas, ressuscitou essa indecência em quatro horas.
Marcados para morrer Orlando Brito
Há muitas diferenças e uma única semelhança entre Anthony Garotinho (à esq.) e Germano Rigotto (à dir.), candidatos a disputar a presidência pelo PMDB. O gaúcho Rigotto sempre esteve no partido e é pouco conhecido fora do Rio Grande. O fluminense Garotinho acaba de chegar à legenda, mas o Brasil o conhece.
A semelhança é mais relevante: ambos acabarão enganados pelos pajés. Rigotto não será candidato por falta de cacife. Por excesso, Garotinho tampouco será.
O Haiti daqui pode esperar Soldados do Exército brasileiro seguem promovendo nas favelas do Haiti a faxina pacificadora que falta aos morros do Rio. "Não cabe às Forças Armadas combater quadrilhas de bandidos", recita o coro dos militares. É o que tem feito o contingente no Haiti. Só pode ali. Não aqui. O Brasil é mesmo coisa para profissionais. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, reafirma que o Exército ficará distante dos morros conflagrados. "Para esse trabalho, temos a Força Nacional", diz. Das lonjuras onde prepara a entrada em ação, a Força só observa o cotidiano das metrópoles brutalizadas.
Certo, há disfunções sociais e econômicas a corrigir o quanto antes. Mas até que os tumores sejam removidos é preciso cuidar da sobrevivência do Brasil.
Milagre da multiplicação
Foto de Sergio Jr.
Algarismos misteriosos: Berzoini jura que o PT cresceu na crise Ricardo Berzoini é um hiperbólico incurável. Nomeado para o Ministério da Previdência Social, resolveu criar a maior fila de idosos de todos os tempos. E assim fez, cavalgando uma fórmula tão singela quanto brutal: decretou o recadastramento dos brasileiros idosos, que se enfileiraram nas calçadas para provar que existiam.
Agora na presidência do PT, o sempre superlativo Berzoini acaba de divulgar cifras audaciosas até para o partido que fez de 2005 o Ano do Mensalão. Segundo o morubixaba da tribo da estrela, deu-se mal quem imaginou que a catarata de escândalos tornaria o PT menor e mais fraco. No começo da semana, informou que o número de militantes é superior ao de janeiro passado, o início do annus horribilis.
"Temos hoje 864.273 filiados", surpreendeu o presidente. As cabeças a mais somariam exatamente 24.165. "Apenas 5.148 deixaram o partido", entusiasma-se.
Quem são os neopetistas?, perguntam os muitos intrigados com o milagre da multiplicação. Berzoini não responde. Só recita os algarismos que parecem coisa do Delúbio.
Doutores têm alergia à mata Não faltam empregos para médicos, mesmo se recém-formados e inexperientes. O que falta é médico que não sofra de alergia à selva, queixam-se os prefeitos de duas cidades do Amazonas. Coari, 100 mil habitantes, a 370 quilômetros de Manaus, garimpa há um mês 12 profissionais dispostos a cuidar da saúde dos nativos. Parintins, 110 mil moradores, a 315 quilômetros da capital, caça - até agora infrutiferamente - pelo menos 18 médicos. O salário é de bom tamanho. Um novato recebe R$ 4.600 da prefeitura e outros R$ 5.300 do governo estadual. Especialistas ganham R$ 12 mil. Cirurgiões levam R$ 1.500 para "ficar de sobreaviso".
O governo Lula deveria remeter à região 40 companheiros médicos. E festejar o sucesso do Programa Primeiro Emprego.
Um blog muito doido Antonio Lacerda Dialeto delirante: Cesar Maia espanca o português na internet
Quem visitou em 13 de fevereiro o blog do prefeito Cesar Maia foi castigado por generosas lições de mau português e pieguice. Seguem-se algumas delas (e, entre parênteses, comentários ligeiros do colunista):
1. "De dezembro de um ano, a fevereiro do ano seguintes, sempre as avaliações dos governos melhoram." (A primeira vírgula está sobrando. Como o s nesse seguintes.)
2. "Porque é assim?" (Por que não perguntar a alguém do ramo se esse porque é junto ou separado? É separado.)
3. "O reveillon produz magicamente uma sensação de começar de novo." (Cesar Maia, quando está de bem com a vida, é pura poesia.)
4. "Vem as férias de janeiro." (cadê o circunflexo no e?)
5. "Em novembro de 2005 com 10 pontos na frente, os liberais chamaram eleições para janeiro de 2006." (Chamaram como, prefeito? Pelo nome? Assoviando?)
6. "Há 15 dias das eleições tudo mudou." (Há com h e acento agudo? O prefeito precisa de um curso intensivo de português. Ou acha que, depois de Lula, vale tudo?)
Fonte: JBOnline
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