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A grande mídia, porta-voz da tese neoliberal do
"Estado-mínimo e mercado-máximo", já decidiu qual reforma
previdenciária o governo federal deve implementar. Eis a receita:
tomar por verdadeiro o controvertido e catastrofista pressuposto de
que a Previdência estaria "quebrada" e abraçar uma proposta de
"reforma", cujo núcleo consiste em cassar o direito dos servidores
públicos à aposentadoria integral, remetendo os prejudicados para
fundos de complementação. Exatamente como os lobbies dos banqueiros e
das empresas privadas de previdência tentaram em vão obter do governo
anterior. Exatamente conforme o receituário do FMI.
As entidades representativas dos advogados públicos do estado de São
Paulo rompem com a suspeita bajulação da grande mídia e trazem à
ponderação e à discussão questões indispensáveis para um debate
efetivamente sério sobre a Reforma Previdenciária.
Causas econômicas
A estagnação econômica desde a década de 80, a recessão induzida e a
automação (reestruturação) socialmente irresponsável da produção (com
desemprego para muitos e lucros para poucos) expulsaram milhões de
trabalhadores do mercado de trabalho ou os empurraram para a
informalidade – aí incluídos perto de um milhão de servidores públicos
demitidos para dar forma ao Estado "mínimo".
Resultado: progressiva redução da quantidade dos contribuintes e do
montante das contribuições para a Previdência Social.
Pensar uma reforma meramente fiscal da Previdência com base neste
quadro econômico patológico só faria sentido em cérebros que já se
conformaram com a recessão econômica como fato natural, inalterável
pela ação do Estado – bem ao contrário do programa econômico defendido
pelo partido do presidente da República em campanha.
A retomada do crescimento, com a abertura de milhões de novos postos
de trabalho, inclusive no serviço público, trará imediato aumento da
arrecadação fiscal em todos os níveis. Desprezar esse condicionamento
macroeconômico no diagnóstico da Previdência significa atribuir a ela
a responsabilidade por uma crise de receitas que foi gerada fora dela
e, então, torna-se sedutor o remédio simplório dos neoliberais: agir
nas conseqüências, e não nas causas – isto é, cassar a aposentadoria
integral dos servidores. Os banqueiros, únicos beneficiários desse
malabarismo, já esfregam as mãos de satisfação ante a perspectiva de
ampliação do hoje raquítico mercado da previdência privada.
Causas políticas
Adiante-se desde logo que altíssimos valores do montante arrecadado
pela Previdência foram, no passado, desviados para incontáveis obras
dos governos federal e estaduais, o que, por óbvio, gerou um enorme
desfalque no sistema.
Esse "buraco" foi em muito aumentado em razão de o sistema em vigor
não imputar ao empregador público qualquer contribuição à Previdência,
como é exigido do empregador privado.
Portanto, ao contrário do que se apregoa, não foi a Previdência que
quebrou o Brasil, mas a irresponsabilidade e a imprevidência de
governos anteriores é que podem, eventualmente, ter quebrado a
Previdência. Há, nesse campo, muito a apurar, para se responsabilizar
seus autores – que não são, nem foram, os servidores.
Causas criminais
Estimativas oficiais indicam que, para cada real arrecadado, quase
outro real é sonegado, inclusive na Previdência – sob complacência de
sucessivos governantes, nas três esferas da Federação.
Sem, primeiro, atacar-se a sonegação fiscal com decisão e método,
envolvendo-se a sociedade e punindo-se sistematicamente os
sonegadores, soará insincera qualquer reforma da Previdência, ainda
mais se implicar decepar direitos ou expectativas de direitos. Assim
como soará não-convincente se, antes, o Estado não for aparelhado
adequadamente para cobrar de modo eficiente os bilhões de reais de
dívidas fiscais dos empresários que se apropriam indevidamente das
contribuições previdenciárias de seus empregados.Outrossim, nenhuma
proposta de reforma previdenciária convencerá a sociedade, se não for
precedida de rigoroso levantamento das inumeráveis fraudes que lesaram
e lesam a Previdência, a começar pelas falsas aposentadorias e pelos
desfalques astronômicos, até agora com escassa recuperação de valores.
Confusões propositais
Nas últimas décadas, nossos legisladores decidiram, acertadamente,
conceder aposentadorias a milhões de brasileiros pobres que jamais
haviam contribuído para a Previdência Social. Foi o caso, dentre
outros, dos trabalhadores rurais e dos idosos com mais de 70 anos.
Mas essa opção – reparadora e justíssima – teve e tem um preço, que
deveria ser custeado com naturalidade civilizatória pela arrecadação
tributária, mediante dotações próprias do Tesouro, em vez de se onerar
e culpar de "deficitário" o fundo previdenciário. Considerar esse
brutal custo acrescido (que não tem a contrapartida de receitas
prévias) como "despesa" da Previdência (e não do Tesouro) é outro modo
de "demonstrar" a suposta inviabilidade do sistema previdenciário
atual.
Da mesma forma, lança-se mão da confusão entre Previdência e
Seguridade. A Seguridade Social, patamar mínimo de civilização
solidária, compreende a garantia, para todos, de saúde, assistência
social e previdência (pensões e aposentadorias). Mas só a Previdência
é geradora de receitas por meio das contribuições recolhidas
compulsoriamente sobre a remuneração dos servidores públicos e dos
trabalhadores da iniciativa privada.
A saúde e a assistência social são mantidas pelo Tesouro, como um
encargo aceito pela sociedade. Confundir as duas despesas, isto é,
atribuir à Previdência todo o "déficit" da Seguridade, configura
manobra tão desonesta quanto primária – mas, certamente, conveniente
aos empenhados na demolição do sistema previdenciário.
Retorna também o "argumento" de que a aposentadoria integral do
servidor público constitui um "privilégio", já que a aposentadoria dos
trabalhadores privados foi limitada, à força, ao teto de míseros R$
1.500. Essa solução de nivelar por baixo, socializando a miséria, não
serve ao país.
Em vez de se restituir dignidade (remuneração integral) à
aposentadoria dos trabalhadores privados, a pretensão é reduzir também
à indignidade (o pretendido teto) a aposentadoria dos servidores
públicos.
Especificidades do servidor
O servidor público efetivo é um trabalhador diferente dos demais, tem
atribuições e regime jurídico diversos de outros trabalhadores. A ele
cabe, em última análise, a consecução dos fins do Estado, de que todos
se beneficiam.
Por isso, a Constituição Federal, as Constituições estaduais e as leis
infraconstitucionais os tratam com rigor superior ao dos demais
trabalhadores, sujeitando-os a uma série de responsabilidades e
limitações, dentre outras: vedação de participarem de licitações
públicas, proibição de acumularem cargos (salvo reduzidas exceções),
impedimento de advogarem privadamente (caso das carreiras jurídicas),
impedimento de serem titulares de empresas privadas etc., além dos
riscos e tensões inerentes a diversas carreiras (militares, bombeiros,
policiais, professores, agentes penitenciários, profissionais da saúde
etc.).
No tocante à aposentadoria, a situação também é diversa – e mais
exigente. Para fazer jus à aposentadoria integral, o servidor efetivo
federal contribui com uma alíquota sobre a totalidade de sua
remuneração e não sobre algum "teto previdenciário". Mesmo em casos
como o do estado de São Paulo, em que a contribuição dos servidores
efetivos seria apenas para fins de pensões e assistência médica, a
retenção se dá mediante índices incidentes sobre a totalidade das
remunerações, e não sobre um teto-limite, diversamente do que ocorre
com os trabalhadores da iniciativa privada.
Aberrações do passado
Algumas situações excepcionais e reprováveis que existiram no passado,
oportunisticamente divulgadas como se ainda estivessem em vigor, foram
suprimidas em definitivo pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998.
Assim, no sistema já em vigor, apenas pode ser concedida a
aposentadoria ao servidor se ele comprovar tempo de contribuição (art.
40, parágrafo 1º, inciso III da CF); ficou expressamente vedada
qualquer possibilidade de contagem de tempo de contribuição fictício
(art. 40, parágrafo 10° da CF); foi eliminada a possibilidade de o
valor da contribuição ser incompatível com o da aposentadoria do
servidor, pois, para se aposentar com a última remuneração, o servidor
deverá cumprir um tempo mínimo de 10 anos de efetivo exercício no
serviço público e ter contribuído por, pelo menos, cinco anos no cargo
efetivo em que aposentar (art. 40, parágrafo 1°, inciso III da CF).
Mais ainda: a mesma EC-20 introduziu idade mínima de aposentadoria
para os servidores (60 anos para homens e 55 anos para mulheres),
eliminando aposentadorias precoces.
Restariam outras aberrações? Talvez sim, mas agora em número reduzido
e bem localizado. A imprensa cogita de algumas dezenas de
aposentadorias de valores exorbitantes e irregulares. Muito simples:
por que não se apuram e coíbem as eventuais ilegalidades, em vez de
deixá-las pairando como sombra sobre o conjunto dos servidores?
A demolição
Ingressar hoje no serviço público implica ônus e limitações
progressivas (agravadas em diversas carreiras, como mencionado). E, em
face da brutal compressão salarial das últimas décadas (maior no setor
público do que na iniciativa privada), praticamente só remanesce como
atrativo ao ingresso/permanência no serviço público a possibilidade de
aposentadoria sem rebaixamento abrupto e humilhante do padrão de vida
na velhice – já que os servidores não levantarão um centavo de FGTS ao
se aposentarem. Suprimir a aposentadoria integral dos servidores
equivale a eliminar de vez a possibilidade de quadros qualificados e
motivados nele ingressarem ou nele permanecerem, o que acelerará a
deterioração dramática da qualidade dos já insuficientes serviços
prestados à população e enfraquecerá a defesa do patrimônio público e
do interesse social – numa palavra, seria a consumação do "Estado
mínimo-mercado máximo" sonhada pelos apetites neoliberais.
Em especial, os quadros de maior escolarização aposentar-se-ão às
pressas, se puderem, ou migrarão para a iniciativa privada, que lhes
acena com salários melhores. Quanto custará ao Estado, em tempo e em
valores, a formação de outra geração de servidores preparados? Aliás,
o simples ressurgimento da ameaça à aposentadoria integral já gerou
esta conseqüência inquietante: milhares de servidores já se
precipitaram, entre janeiro e fevereiro, a requerer a contagem de seu
tempo de serviço para se aposentarem – exatamente como ocorreu em 1995
e em 1998. Isto, por si só, já aumentará a curto prazo a despesa da
Previdência Social, o que dá a medida da irresponsabilidade dos
apressados proponentes dessa reforma mal-pensada – a menos que o
propósito deles seja esse mesmo: agravar artificialmente o problema
para justificar a demolição neoliberal acenada.
A "solução"
Unificar os sistemas previdenciários, fixar teto para as
aposentadorias dos servidores e instituir fundos de complementação
custeados pelos servidores e pelos governos – eis a proposta
"salvadora" dos neoliberais. Mas ela acarretará redução imediata da
receita previdenciária, eis que, obviamente, cada servidor passará a
contribuir não mais sobre a totalidade da remuneração, mas apenas
sobre o teto. Se hoje a União arrecada anualmente cerca de R$ 4,5
bilhões de reais a título de contribuição previdenciária dos
servidores, estima-se que, com essa "solução", essa receita despencará
entre R$ 1,7 a 2,5 bilhões anuais.
Além da perda da receita, haverá também aumento da despesa: milhares
de servidores que há décadas vêm contribuindo sobre a totalidade de
sua remuneração certamente já recolheram montantes que ultrapassam os
valores que perceberiam pelo teto das novas aposentadorias. É claro
que baterão imediatamente às portas do Poder Judiciário para obter da
União, dos estados e dos municípios o ressarcimento daquilo que
pagaram a maior. Mais ainda: se os fundos de complementação incluírem
os atuais servidores ainda não-aposentados, os governos precisarão,
logo de partida, providenciar aportes bilionários para cobrir o
passivo previdenciário acumulado que nunca depositaram – caso
contrário, os fundos já nasceriam "quebrados". Cálculos confiáveis
indicam que a unificação dos sistemas geraria um custo de adequação
superior ao alegado desequilíbrio atual. De onde sairão esses
recursos, já que o próprio orçamento deste ano já precisou ser
amputado? Por fim: de onde sairão os recursos para os Municípios,
Estados e a própria União honrarem sua contrapartida no financiamento
regular dos fundos a serem criados? A verdade é que a "solução"
neoliberal para a Previdência brasileira não passa de cópia maquiada
dos modelos implantados pela ditadura chilena e pelo fracassado
governo argentino – modelos que já quebraram.
Credibilidade
Em suma: tomar por falido o atual modelo previdenciário e substituí-lo
pela fórmula neoliberal proposta é, para dizer o mínimo, tecnicamente
polêmico, administrativamente temerário e poderá mostrar-se
economicamente desastroso para o país – para não falar do verdadeiro
logro que representaria para os atuais servidores.
Especialistas da maior competência apresentam dados e números que se
chocam com a avaliação catastrofista do agrado da grande mídia. Os
servidores, assim como todos os cidadãos, contribuíram e continuam
contribuindo para a Previdência – não há como escaparem, as retenções
são feitas sobre os salários. Portanto, o governo federal arrecadou,
desde a criação do regime previdenciário, um enorme montante pago por
várias gerações de servidores. Para se saber se há ou houve "déficit"
no sistema próprio dos servidores, dever-se-ia levantar o valor de
todas as contribuições recolhidas, atualizar o montante com a
aplicação de juros e correção monetária (pois o valor arrecadado foi
ou deveria ter sido capitalizado) e, desse resultado, subtrair todo o
valor despendido a título de pagamento das aposentadorias e pensões
dos servidores. Apenas esse critério é idôneo para a apuração do saldo
(positivo ou negativo) realmente existente no sistema.
Só após uma séria, sistemática e transparente auditoria pública, com a
participação da sociedade civil, é que se poderá chegar a um balanço
realista e sustentável, capaz de conferir credibilidade social a um
projeto de reforma. Sem isso, qualquer alteração será precipitada,
meramente ideológica e correrá o risco de desmoralizar-se em pouco
tempo – levando consigo, de roldão, o governo que cair nessa armadilha
neoliberal.
Os servidores públicos do Brasil queremos contribuir nesta discussão,
não só porque colocam-nos na mira para sermos abatidos, mas também
porque conhecemos muito melhor do que a grande mídia as deficiências e
virtudes da máquina administrativa pública. E, acima de tudo, porque
somos patriotas, orgulhamo-nos de estar a serviço de nosso próprio
povo, e não do capital financeiro, que só se dará por satisfeito
quando nos reduzir a todos de joelhos!
(*) Presidente da Associação dos Procuradores do Estado de São Paulo (Apesp)
(**) Presidente do Sindicato dos Procuradores do Estado, das
Autarquias, das Fundações e Universidades Públicas do Estado de São
Paulo (Sindiproesp)
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