Frei Betto - Eu queria começar com o seguinte: você tem que idade e
quantos livros publicou?
Leonardo Boff - Bom, eu tenho 58 anos e 62 livros publicados.
Frei Betto - Teu pai era um erudito, ex-seminarista jesuíta, e a tua
mãe morreu muito tempo depois dele, analfabeta...
Sérgio de Souza - A minha pergunta inicial era por aí mesmo: como foi a
sua infância?
Leonardo Boff - Sou filho de imigrantes italianos, de avós
italianos que foram para o Rio Grande do Sul e daí para Santa Catarina, no
interior, e desbravaram a região que é Concórdia hoje, que é a sede da
Sadia. Meu pai tinha sido quase jesuíta e fez uma opção curiosa, que foi a
de acompanhar a colonização da região para ser professor, o farmacêutico,
o juiz de paz, mestre-escola, puxador de orações, era um mestre da
colonização.
Frei Betto - Falava várias línguas...
Leonardo Boff - É, dava aulas em italiano e alemão. Quando veio a
Segunda Guerra e a imposição do governo de que todos deviam falar o
português, ele então começou a ensinar em português, a escola não podia
mais ensinar em italiano e alemão.
Frei Betto - Ele sabia grego e latim...
Leonardo Boff - Ele conhecia muito bem o latim e o grego, e durante
seus trinta anos como professor ensinou rudimentos de latim e grego a
todos os estudantes. Tanto que, quando cheguei ao seminário, com 12 anos,
eu conhecia as palavras básicas do latim e do grego. E, como na região
todos só falavam alemão e italiano, ele criou uma espécie de biblioteca
popular, mais de 2.000 livros, e depois da reza da comunidade cada família
buscava um livro, tinha de ler em português, e no outro domingo tinha de
contar o que leu, numa roda de mais de cem pessoas. Ele se fez também
representante de uma loja de rádios de Porto Alegre, e montava em cada
casa da nossa região um rádio, para a família ouvir o dia inteiro e assim
aprender o português. Quando não queriam, ele montava o rádio em cima de
um toco, com as baterias, e ia embora. E à noite fazia alfabetização de
adultos.
Frei Betto - Menos para a tua mãe.
Leonardo Boff - Com a minha mãe não havia maneira, inventei mil
formas, numa viagem que fiz ao Vaticano consegui que o papa benzesse um
caderno e uma caneta de um confrade que trabalhava na Secretaria de
Estado, para a minha mãe, e disse a ela: "Isto aqui é bento pelo papa,
esta caneta, este caderno, a senhora aprende...". E ela: "O papa não vale
nada, é um bobalhão, eu não quero saber de aprender". É interessante
lembrar que a Sadia é de parentes da minha mãe, ela é Fontana – a Sadia
era um frigorífico dos frades de Concórdia, de repente cresceu e chamaram
alguém mais esperto, que era o Atílio Fontana, e os frades venderam o
frigorífico a ele por um preço irrisório. Ele era tão esperto que
negociava banha e metia pedra dentro para pesar mais, ou alfafa, fazia
aqueles feixes de alfafa e pedras dentro para pesar mais. Quer dizer, esse
era o esperto que podia levar o negócio adiante.
Sérgio de Souza - Pai do Omar Fontana.
Leonardo Boff - Pai do Omar. O Atílio Fontana morreu há cinco ou
seis anos. E, como não havia estrada naqueles interiores, eu ia para o
seminário nos aviões da Sadia, tudo cheio de lingüiça e frangos, e num
banquinho da frente, eu e meu irmão, cheirando frango até São Paulo. O
seminário era perto de Bauru, em Agudos.
Ricardo Kotscho - E como foi essa vocação tão cedo, com 12 anos?
Leonardo Boff - Entrei no seminário porque meu pai era muito
religioso, mas de uma religiosidade muito crítica. Como tinha formação
jesuíta, vivia brigando com os padres alemães, franciscanos, que eram
muito duros, nazistas. Então, como ele animava a vida da comunidade,
naturalmente os filhos eram ligados à Igreja etc. Com 12 anos, de fato,
entrei para o seminário, depois entrou um outro irmão meu, que também é
teólogo, o Clodovis.
Frei Betto - Não houve resistência por parte da tua mãe?
Leonardo Boff - Olha, houve por parte do meu pai, porque ele dizia:
"Esses alemães são tão reacionários, tão nazistas...". Porque meu pai
atendia também a comunidade protestante, e os padres não queriam que se
casassem protestantes e católicos. Então era um ponto de atrito.
Leo Gilson Ribeiro - Quer dizer que seu pai era ecumênico.
Leonardo Boff - Ecumênico, e defendia os caboclos que eram muito
perseguidos. Esse é um capítulo trágico da nossa região, os colonos faziam
expedições para matar índios, porque os índios vinham e roubavam roupa,
roubavam coisas expostas. E me recordo de histórias dos meus avós, faziam
expedições de dez, doze, com espingardas, e iam "matar os bugres".
Contavam que exterminaram todos os bugres da região. Mas meu pai tinha uma
opção muito grande pelos caboclos, pelos negros, que eram extremamente
discriminados pelos alemães e italianos. Ele era padrinho de todos esses
discriminados e na escola nos obrigava a sentar sempre junto dos
caboclinhos, junto a negrinhos, para mostrar que o filho do professor e o
professor estão a favor destes. E até hoje, naquela região, se guarda a
memória, muitos deles dizem: "Deus no céu e seu Mansueto na Terra".
Mansueto era o nome de meu pai. |
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"MEU PAI DIZIA: 'DEUS INVENTOU OS
PADRES E SACERDÓCIO. O DIABO
INVENTOU O CLERO'."
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Frei Betto - Eu queria voltar
à tua mãe. Tem duas imagens que marcam muito, que é ela ser analfabeta e
um dia você ter gravado os seus livros para ela ouvir...
Leonardo Boff - Gravei tópicos de vários livros meus para ela
escutar, ela escutou e disse: "Puxa, mas que interessante, eu não te
ensinei isso, como você sabe essas coisas se eu não te ensinei?" Uma vez
cheguei em casa e ela me perguntou: "Você, que é padre" – ela não dizia
teólogo, dizia "tiólogo" –, você já viu Deus?" Eu digo: "Mãe, a gente não
vê Deus". Ela: "Mas como, você, tantos anos padre, não viu Deus? Isso é
uma vergonha para o padre!" Eu digo: "Mãe, a senhora vê?" E ela: "Lógico
que eu vejo Deus. De vez em quando tem o pôr-do-sol, aquelas nuvens, fico
olhando e ele passa com aquele manto, sorrindo, e atrás vem teu pai que já
morreu, sempre olhando pra mim e rindo, e eu fico uma semana inteira com
alegria no coração." E me olhava com tristeza infinita: "Como é possível
que os padres não vêem Deus?" Quem é teólogo é ela! (risos)
Marina Amaral - Você teve educação religiosa formal. Como era a parte
formal de ir à missa, essa relação que as crianças têm com a religião
católica, essa imagem de que Deus está espiando tudo o que você está
fazendo, que vai te castigar, como era isso pra você?
Leonardo Boff - Olha, primeiro que não havia missa. Havia uma missa
a cada três meses mais ou menos, porque o padre circulava, vinha a cavalo,
mas todo domingo tinha o rosário, com as ladainhas italianas, as orações
todas em latim, e meu pai ajudava nessas coisas. Ele era extremamente
libertário e gerou na família todo esse espírito. Por exemplo, ele dizia:
"Deus inventou os padres, o sacerdócio. O diabo inventou o clero. O clero
tem de ser enforcado com a tripa do último padre, porque a desgraça é o
clero na Igreja". (risos) Então, ele já nos ensinava essas coisas desde
pequeninos. Eu fui para o seminário dizendo: "Olha, o clero tem de ser
enforcado". (risos) Quase me mandam de volta! Uma frase que sempre guardo
dele é: "A Igreja Católica vive daquilo que Jesus não quis". Isto é,
poder, instituição, aparato, e dizia: "A referência nossa tem de ser a
Bíblia, porque ela é a palavra de Jesus, lá você não vê poder, não vê nada
disso". E ele tinha na biblioteca dois autores proibidos: A Origem das
Espécies, de Darwin, e os romances de Dumas, que eram todos proibidos,
estavam no index. Uma vez fui para o seminário com aqueles livros, quase
fui excomungado, porque quem lia se auto-excomungava. Então cheguei com
dois livros de Alexandre Dumas, e eles: "Como? Você, com 15 anos, está
excomungado". Fizeram uma delegação de três padres pra visitar meu pai,
pra ele entregar ou queimar os livros. Ele disse: "Absolutamente, eu
queimo vocês, mas não os livros". (risos)
Frei Betto - Diga do epitáfio que está no túmulo dele.
Leonardo Boff - Colocamos no epitáfio dele: "De sua boca ouvimos,
de sua vida aprendemos, quem não vive para servir não serve para viver".
Leo Gilson Ribeiro - Ele tinha algum santo de devoção, por exemplo, São
Francisco de Assis?
Leonardo Boff - Não. Ele não venerava nenhum santo, porque dizia:
"Quem conhece Deus não venera os santos, porque vai logo no Supremo". Ele
gostava de São Francisco, mas não como interlocução, nisso ele era
bastante protestante, eu diria.
Carlos Moraes - Queria situar a sua rotina hoje. Quando deixei a
Igreja, que providencia a sobrevivência, providencia tudo, e cheguei em
São Paulo, era difícil comprar, por exemplo, um açucareiro, comprar isso,
aquilo... Como foi com você?
Leonardo Boff - Fiz os estudos de pós-graduação em Munique, na
Universidade do Estado. Então, era um frade sozinho que freqüentava a
universidade, tinha de pagar os estudos, viver naquele mundo profundamente
secular, e a teologia incrustada dentro da universidade do Estado, como
acontece na Alemanha. Então, nesses cinco anos em que me enfronhei no
mundo, nas férias trabalhava para conseguir o meu sustento.
Leo Gilson Ribeiro - Isso é muito comum na Alemanha. Trabalha três
meses e nos outros três freqüenta a universidade.
Leonardo Boff - Quando voltei, tinha uma dupla tarefa: as aulas de
teologia no seminário de Petrópolis e chefe do editorial religioso da
Vozes junto com a Rose Marie Muraro, que dirigia o editorial leigo. Isso
levou de 1970 até eu sair, até ser deportado pelo Vaticano, em 1985. E
isso me levou a ter um contato muito grande com a intelectualidade
brasileira. Inclusive coube a mim fazer a mediação da publicação da
revista do Cebrap, então tive vários contatos com Fernando Henrique
Cardoso, que era um dos professores lá, e nós da Vozes publicávamos seja a
obra do Cebrap, seja a revista. Aí tive uma certa autonomia, uma certa
inserção no mundo secular. E quando saí não senti muita diferença, porque
na verdade consegui manter o nível de trabalho e produção que tinha como
teólogo padre, e agora teólogo leigo, isto é, acompanhar as comunidades
eclesiais de base, movimentos sociais, palestras no Brasil e fora do
Brasil, cursos nas universidades, e logo em seguida a Universidade do
Estado do Rio de Janeiro, a UERJ, me convidou como professor visitante, e
em seguida abriu a possibilidade de fazer concurso pela cadeira de
filosofia, ética e ecologia. |
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"FUI VÍTIMA DE UM PROCESSO MAIS
AMPLO DO VATICANO CONTRA A
CNBB E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO."
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Ricardo Kotscho - Do que você sente falta – da Igreja como instituição
– agora que você está fora? Ou não sente falta de nada?
Leonardo Boff - Vou dizer de forma bem rudimentar: Sinto falta do
caráter simbólico, das celebrações, do canto gregoriano. Por exemplo, em
Petrópolis, durante vinte anos, às 10 horas eu celebrava a missa dos
Canarinhos, em latim, com aquele coro extraordinário, que é um dos
melhores do país, com a melódica fantástica, as grandes peças da música
sacra, e eu sempre celebrava essa missa que era irradiada. Sinto falta
disso.
Roberto Freire - Do rito, não é?
Leonardo Boff - Do rito, desse lado mais sacramental. Se bem que
deixei a igreja instituição, a paróquia, a diocese, mas não a igreja da
base. E hoje o que mais faço é batizar, enterrar mortos, fazer casamentos.
Carlos Moraes - Mas pode?
Leonardo Boff - Na igreja da base eu faço. E até com apoio de
padres e bispos, porque a igreja da base é a igreja das comunidades, e há
uma carência fantástica de ministros, de padres. E, depois, há todo um
grupo de cristãos, que chamo de "cristãos novos" ou "cristãos imigrados",
que são pessoas como vocês, intelectuais, jornalistas, artistas etc., que
podem transfundir a doutrina cristã mas não se identificam com a rituália
oficial. E me pedem então para enterrar uma pessoa, batizar uma criança...
Frei Betto - Conta a experiência com o Darcy.
Leonardo Boff - O Darcy Ribeiro deixou no testamento que eu deveria
fazer a encomendação do cadáver dele, e eu fiz. Também o que faço muito é
atender pessoas que têm uma crise espiritual, estão em busca de alguma
coisa, e pedem uma conversa. O Darcy pediu: "Eu quero a minha grande
conversa com o frei Betto e o frei Boff". O Betto estava na África, tentei
chamá-lo, não encontrei, e fui sozinho. Digamos que foi a última grande
conversa entre tantas que tive com o Darcy. Ele disse: "Boff, quero ter
uma conversa metafísica. Quero abordar a questão da morte, o que vem
depois da morte, e não tem nenhum interlocutor, entre os meus amigos, que
possa sustentar o discurso que eu quero". Fui lá uns quinze dias antes de
ele morrer, e ele se abriu: "Quero discutir com você o tema da morte,
porque estou enfrentando a morte, o meu último grande desafio". Então me
fez ler o prefácio do inédito Confissões (livro lançado posteriormente),
em que faz uma leitura de sua vida, não uma autobiografia, mas fatos
relevantes, luminosos da vida dele. E terminava o prefácio dizendo: "Pena
que a vida, tão carregada de lutas e fracassos, e vitórias, e vontade de
trabalhar, seja marcada por uma profunda desesperança, porque nós
voltamos, através da morte, ao pó cósmico, ao esquecimento, e ficamos na
memória, que é curta e só de algumas pessoas, e voltamos à diluição
cósmica". Então eu disse, ao terminar a leitura: "Darcy, acho que é uma
interpretação de quem vê de fora. É como você ver a borboleta, e ver o
casulo. Você pode chorar pelo casulo que foi deixado para trás e ver que
ele morreu. Mas você pode olhar a borboleta e dizer: "Não, ele libertou a
borboleta, e ela é a esperança de vida que está dentro do casulo".
Leo Gilson - Embora seja muito efêmera?
Leonardo Boff - É. Mas, de toda maneira, é vida, não é? Então eu
disse: "Darcy, no pensamento mais originário, contemporâneo, da biologia
molecular, no estilo Elya Prigogine, o caos é uma invenção da orbi, a
morte é uma invenção da vida, pra vida ser mais complexa, mais alta, e a
tendência da vida é buscar a sua perpetuação, a sua imortalidade. Darcy,
deixa te dizer como imagino a tua chegada, o teu grande encontro. Não vai
ser com Deus Pai, porque pra você Deus tem de ser Mãe, tem de ser
mulher... (risos) Então tem de ser Deusa. Imagino assim: que Deus, quando
você chega lá em cima, vai dizer com os braços abertos: ‘Darcy, como você
custou pra chegar, eu estava com uma saudade louca de você, finalmente
você veio, você não queria vir, você teve de vir e agora chegou’. E te
abraça e te afaga em seu seio, e te leva de abraço em abraço, de festa em
festa...". E ele emendou: "De farra em farra...". (risos) Eu digo: "Darcy,
isso será pela eternidade afora". Aí ele parou e me olhou de lado, assim
como que interrogando, e disse: "Como gostaria que fosse verdade! Minha
mãe morreu cheia de fé e morreu tranqüila, eu invejo você, que é um homem
inteligente e de fé. Eu não tenho fé. Como gostaria que fosse verdade". E
aí lhe correu uma lágrima e ele ficou silencioso, estremeceu e teve um
acesso de diabetes, uma queda muito grande de pressão e tiveram de
levá-lo. E terminou assim a conversa. Eu ainda disse antes de ele sair:
"Darcy, não se preocupe com a fé, porque Deus não se incomoda com a fé.
Pelos critérios de Jesus, quem tem amor tem tudo. Então, quando a gente
chega na tarde da vida como você, quem atendeu os famintos como você;
crianças abandonadas como você; índios marginalizados como você; negros
que você defendeu; as mulheres oprimidas, desde o neolítico ninguém louvou
tanto a mulher quanto você – quem fez isso ganha tudo, porque optou pelos
últimos, por aqueles que estavam em necessidade. Quem fez isso tem o
reino, tem a eternidade, tem Deus. E você só fez isso". Ele respirou e
disse: "Puxa, mas tem de ser verdade". Mas não conseguia dar o passo, acho
que não importa dar o passo, acho que ele teve a coerência de vida, que
foi carregada de um grande sentido, de uma grande luta generosa.
Sérgio Pinto - Lendo nos arquivos um pouco da sua trajetória, salta aos
olhos a pressão, as sucessivas convocações ao Vaticano, os sucessivos
esclarecimentos, questionamentos etc. Como foi esse processo de inquisição
do qual você é vítima?
Leonardo Boff - É um processo que talvez o Roberto Freire tenha
mais condições de descrever. Porque é um processo que atinge a tua
identidade mais profunda, não é só um processo doutrinário, é um processo
de desmontagem da tua figura de teólogo, o efeito é que alguém que está
sob interrogatório do Vaticano não pode ser convidado pela Igreja, pelas
comunidades, pelos bispos, para dar palestras no retiro espiritual. É
tolerado que ele dê aula, mas com grande vigilância sobre o que ele
ensina. E ele recebe uma vigilância direta sobre as homilias que profere,
porque já está sob suspeita. Como padre, tem o direito de celebrar missa e
fazer a homilia, mas porque está em processo de ajuizamento ele perde toda
a confiabilidade.
Sérgio Pinto - Não é uma desqualificação?
Leonardo Boff - Desqualificação. Isso vinha desde 1972, cada livro
que eu publicava era objeto de análise do Santo Ofício. E você sente a
vontade deles de condenar. Eu via isso como um paralelo dos nossos
organismos de segurança. Se você vai nas malhas desses organismos, está
perdido, porque sistematicamente, de forma burocrática, você é
acompanhado. Começou em 1972 com o livro Jesus Cristo Libertador, e
culminou em 1984 com Igreja, Carisma e Poder. Há toda uma longa história
com cartas, idas e vindas, um diálogo extremamente penoso com o Vaticano,
com o secretário do Santo Ofício, que depois também foi o grande
inquisidor do processo.
Chico Vasconcellos - Como é o nome desse secretário?
Leonardo Boff - Ele morreu em 1996, era o cardeal Hamer, Jerome
Hamer.
Sérgio de Souza - Você pode reproduzir esse diáologo?
Leonardo Boff - Foi dramático, só nós dois, eu e o cardeal Hamer, é
difícil reproduzir com objetividade, porque foi uma vivência da coisa. Foi
no grande salão do Santo Ofício, que deve ter pelo menos 150 metros de
comprimento. Imenso salão, com tapetes enormes. Lá no fundo, num canto,
uma cadeirinha, uma pequena mesa e eu sentado lá, esperando quarenta
minutos pelo cardeal. Toda hora me diziam: "Está chegando". Vejo ele
chegando de longe, todo paramentado de cardeal, com toda a pompa vermelha.
Fiquei realmente amedrontado. Primeiro, quarenta minutos de espera, você
sozinho, abandonado. Ele vem, senta e diz: "A tua igreja pediu um diálogo.
Quem fala aqui é o responsável pela doutrina, não quero dialogar, só quero
testar se a tua fé é verdadeira ou não. Primeiro, como referência: o que
você acha do Vaticano II?" Eu disse: "O Vaticano II foi um extraordinário
concílio pastoral". E ele: "Erro, não é pastoral, é doutrinário. Esse é o
teu erro, considerar que esse concílio adaptou a Igreja ao mundo moderno,
não adaptou nada! Ele tem de ser lido na óptica do Vaticano I, como
doutrina, e você não faz isso". Aí puxa uma pasta com todas as minhas
cartas. "Na carta tal, você diz isto, pior, você subscreve" – porque eu
sempre subscrevi, com um certo humor franciscano, frater teologus minor et
pecator (irmão, teólogo menor e pecador). "Você escreve isto, você é
pecador mesmo?" Eu respondo: "Está escrito, admiro que o senhor não se
considere um pecador". E ele: "Eu sou autoridade, não cabe a mim
apresentar-me como um pecador". Digo: "O senhor é um cristão". Lembrei o
famoso sonho de São Jerônimo, em que ele aparece no Céu e Deus lhe
pergunta: "Quem é você?" Jerônimo diz: "Teologus sum traductor sum" – sou
teólogo, sou tradutor da Bíblia. E Deus: "Não, não conheço". Até que
Jerônimo acerta: "Cristianus sum". Então, Deus lhe diz: "Sim, cristianus
sum pecator sum". E aí Deus o acolhe. Perguntei ao cardeal: "O senhor
esqueceu o sonho de São Jerônimo?" Pois ele respondeu dizendo: "Eu estive
no Brasil, conheço o teu país, e vocês cometem um erro fundamental que é
pensar a partir da prática. Isso não existe, isso fazem os marxistas, não
os cristãos. Os cristãos pensam a partir da tradição, a partir do
magistério da Igreja, a partir dos documentos oficiais. E vocês tentam
dialogar com a ciência a partir da realidade. Então, vocês não fazem
teologia, vocês são menores, não têm seriedade no discurso". Eu: "Bom, se
não tenho seriedade, por que o senhor me chama aqui, por que questiona os
meus textos?" Até o ponto em que ele diz: "Eu conheço o Brasil, aquilo que
vocês fazem nas comunidades eclesiais de base não é verdade, o Brasil não
tem a pobreza que vocês imaginam, isso é a construção da leitura
sociológica, ideológica, que a vertente marxista faz. Vocês estão
transformando as comunidades eclesiais de base em células marxistas, que,
mais do que rezar e militar a palavra de Deus, aprendem a guerrilha. Por
isso, vocês, quando começam a conversar, dizem: ‘Como vai a luta?’ Está
vendo? A luta. E, para nós, isso quer dizer como vai a vida, não é?"
Sérgio Pinto - Em que ano foi isso?
Leonardo Boff - Foi em 1989. Chegou a um ponto que comecei a chorar
de tanta raiva. E ele disse: "E mostra a tua fragilidade! Porque você
chora como uma criança!" Fiquei com tanta raiva que fechei o punho: "Vou
matar o cardeal". E comecei a mirar onde ia acertar... "Vou matá-lo."
Fiquei lutando contra mim mesmo, por uns cinco minutos, fechado, pensando:
"Quero matar esse homem, porque é isso que ele merece". Então lhe disse:
"Olha, padre, acho que o senhor é pior que um ateu, porque um ateu pelo
menos crê no ser humano, o senhor não crê no ser humano. O senhor é
cínico, o senhor ri das lágrimas de uma pessoa. Então não quero mais falar
com o senhor, porque eu falo com cristãos, não com ateus". Aí ele parou e
disse: "Então vamos falar de outras coisas. Sou cardeal aqui dentro, e o
cardeal mais odiado do mundo, lido com os que entram, com os que devem
sair, nomeio os teólogos, todos os bispos que vêm aqui defendem os
teólogos, tenho de me explicar. Aos domingos vou comer com os dominicanos"
– ele era dominicano –, "ninguém conversa comigo". Morreu de câncer. E
teve uma surpresa imensa, porque ele estava morrendo, eu estava de
passagem por Roma e telefonei: "Aqui é o Boff, aquele que o senhor
condenou". E ele: "Ninguém me telefona... foi preciso você me telefonar!
Me sinto isolado. Queria ser um grande teólogo e não consegui. Me fizeram
logo bispo, me chamaram pra cá, não tenho comunidade, celebro sozinho de
manhã e me sinto desprezado pelos meus irmãos dominicanos". Aí começou a
chorar. Não perdoei: "Quem é o fraco agora? Mas não quero fazer o que fez
comigo! Quero enxugar as suas lágrimas". E ele: "Boff, vamos ficar amigos,
conheço umas pizzarias aqui perto do Vaticano...". (risos)
Chico Vasconcellos - Lá também acaba em pizza.
Leonardo Boff - "... Quando você vier pra cá, me telefone, vamos
tirar essas roupas, vamos conversar, tomar um vinho." Chorava como uma
criança.
Ricardo Kotscho - Qual é o papel de dom Eugênio Sales nesse processo?
Porque esse Hamer não tinha tanto conhecimento do que acontecia no Brasil
pra dizer se havia muito pobre ou pouco pobre. Alguém daqui informava o
Vaticano...
Leonardo Boff - Deixa eu dizer antes qual foi o efeito do Hamer em
mim: nunca tinha desejado a morte a ninguém, nunca tinha imaginado matar
alguém. Voltei para o Brasil totalmente desestruturado em termos
psicológicos. Me senti um criminoso, "eu matei" em termos afetivos. Fui me
curar passando dois meses na floresta amazônica, me enfiei no Acre,
visitando comunidades, para recuperar a minha sanidade psicológica. E tal
foi a densidade, que descobri a minha sombra: "Sou capaz de matar, gente!"
Mas o grande capítulo foi em 1984, com o livro Igreja, Carisma e Poder.
Era uma coletânea de estudos sobre a questão do poder na Igreja e o
carisma, e a questão central era se a Igreja como instituição pode se
converter ou não. Eu dizia que não, enquanto ela é poder não se converte.
Ela é vítima do seu próprio sistema, de sua própria dogmática. Dei o livro
para o meu irmão ler, o frei Clodovis, que é teólogo, e ele me disse:
"Esse livro vai ser condenado. E, se o Vaticano não reagir, é sinal de que
está moribundo, não vale nada. Agora, se tem um mínimo de vida, vai
reagir". E reagiu – me convocaram. E a irritação do cardeal Hamer começou
porque me convocou para o dia 28 de agosto de 1984, o dia do Encontro
Nacional das Prostitutas, e eu era assessor delas. Então escrevi: "Segundo
o Evangelho, as prostitutas são primeiras no Reino de Deus, não vou nesse
dia, prefiro ir ao encontro delas do que ao Santo Ofício. Só aceito ir se
for no dia 7 de setembro, dia nacional da pátria". Ele mandou telegrama
dizendo que só poderia ser no dia 28 de agosto e respondi que iria em 7 de
setembro. De fato, fui nesse dia, que foi o dia do julgamento. Agora, o
que estava por trás era o sentido político da questão – fui vítima de um
processo mais amplo que o Vaticano montou contra a CNBB. Eles pegaram a
mim, que era assessor da CNBB, que ajudava a fazer os documentos etc.,
para atingir a CNBB, especialmente a Teologia da Libertação, esse diálogo
da Igreja com a sociedade, com a pobreza, e atingir as comunidades
eclesiais de base, que este papa não aceita, porque ele acha que é um
desvio fundamental na unidade, porque não tem a eucaristia, não tem a
hierarquia, que são estruturas fundamentais da Igreja institucional. Como
um lobo não come outro lobo, um cardeal não ataca outro cardeal. Pega o
teólogo. Quem montou o processo foi dom Eugênio Sales. Criou uma pequena
"comissão de doutrina", um pequeno "santo ofício" no Rio de Janeiro.
Convocou teólogos de lá, de Porto Alegre, o bispo auxiliar dele – que é um
suíço muito reacionário –, montaram o processo, aliás muito mal montado,
com frases erradas, argumentos totalmente equivocados, e dom Eugênio o
levou para Roma. E Roma disse: "Não fomos nós que avocamos, veio do
Brasil". O segundo ponto é que junto comigo foram dom Paulo Evaristo e dom
Ivo Lorscheiter, que era presidente da CNBB. Dom Paulo havia sido meu
professor e era cardeal. Chegamos os três juntos no Vaticano, o cardeal
Ratzinger ficou sumamente irado e disse: "O fato de convocarmos um teólogo
aqui já é uma condenação implícita. E esse teólogo, para escândalo dos
cristãos, vem acompanhado de Castor e Pólux, as duas divindades pagãs,
como anjos da guarda que o acompanham". Eu disse: "Cardeal, com licença,
nós somos cristãos, venho acompanhado de São Cosme e São Damião e não de
Castor e Pólux" – que sãos os equivalentes pagãos de Cosme e Damião.
(risos)
Ricardo Kotscho - No frigir dos ovos, essa briga vocês realmente
perderam. A CNBB, hoje, é muito mais dom Eugênio do que dom Ivo e dom
Paulo. Uma semana antes de morrer, o Antônio Callado deu uma longa
entrevista e disse que, nos últimos cinqüenta anos, tinha participado de
todas as lutas sociais e políticas do Brasil, sempre do lado certo. E aí,
fazendo um balanço da vida: "Perdi todas". Você não se sente um pouco
assim também?
Leonardo Boff - Acho que não. Porque mexemos com o aparelho central
da Igreja... Mexemos, porque uma teologia, até chegar ao corpo central do
Vaticano, demora três, quatro gerações. Nós, na metade de uma geração, já
estávamos dentro do Vaticano, quer dizer, mobilizamos o papa, os altos
organismos tiveram de reagir em face da Teologia da Libertação.
Sérgio de Souza - Você poderia descrever esse tribunal, como ele
funciona?
Leonardo Boff - O tribunal é dramático. Me senti literalmente
seqüestrado. O convento dos frades fica logo atrás do Vaticano. Eles
vieram com um carro, eu estava me despedindo do superior, dos cardeais,
dois oficiais do Santo Ofício me agarraram, me empurraram carro adentro,
porque haviam dito que eu deveria chegar às 9 horas em ponto. Três para as
9 estavam ali, me agarraram e me empurraram carro adentro...
Marina Amaral - A guarda suíça?
Leonardo Boff - Dois guardas suíços e mais um oficial do Santo
Ofício, que vinha junto pra dizer: "É aquele!" Então, o carro foi pela rua
e num ponto foi pela contramão, com a sirene aberta. Peguei no chofer e
disse: "Olha, posso ser herege, mas é melhor um herege vivo do que um
herege morto, e eu quero viver". (risos) O repórter Lucas Mendes, que
estava cobrindo o episódio, vinha num carro logo atrás, tanto que, quando
o nosso entrou no jardim do Palácio do Vaticano, ele entrou junto e foi
preso. Ficou umas cinco horas lá dentro. Ele considera uma das suas
glórias, ele, como jornalista, preso pelo Vaticano. Passamos por um enorme
portal de ferro, com uns pregos imensos espetados para fora, o carro parou
para que aquilo se abrisse e eu disse: "Aqui é que é o local da tortura?"
E aquele oficial me deu uma cotovelada, com toda a violência... Aí
atravessamos os jardins, chegamos até uma entrada, desci do carro e dois
guardas suíços já estavam ali na porta do elevador, abriram, subi dois
andares e lá estava o cardeal todo paramentado, com outros dois guardas.
Assim que abriu a porta do elevador, ele me recebeu. Como é bávaro e eu
aprendi bávaro porque estudei em Munique, eu disse no dialeto: "Gricia
nargo per cardinala" – pra desfazer aquele ar pesado...
Frei Betto - Em português, o que foi que você disse?
Leonardo Boff - "Salve, senhor cardeal", "Deus te proteja, senhor
cardeal", que é uma saudação que o povo faz na rua. Aí ele me pegou pelo
braço e me levou...
Sérgio de Souza - Aí você está sozinho?
Leonardo Boff - Sozinho. Me levou até o fundo, onde tem uma saleta,
lugar onde eram julgados todos os inquiridos. E lá está a cadeirinha, a
mesma em que sentou Galileu Galilei, sentou Giordano Bruno... e fiz uma
saudação a ela, o que irritou o cardeal. Tem uma mesinha no meio, a
cadeirinha aqui, o inquisidor lá, e o notário aqui ao lado, que vai
anotando tudo. E atrás tem um pequeno anfiteatro, porque antigamente eram
muitos os inquisidores, e embaixo ficava a sala de torturas, que existe
ainda.
Marina Amaral - O processo de inquisição, a maneira como a Igreja se
comporta ao inquirir uma pessoa ainda é a mesma, não houve uma
atualização?
Leonardo Boff - Fundamentalmente não houve atualização.
Frei Betto - Até piorou, porque atualmente, depois do estabelecimento
da infalibilidade do papa, nenhum réu pode ter direito a defesa, porque
não se pode partir do princípio de que a autoridade eclesiástica esteja
equivocada. Então, não existe direito à defesa, é o único tribunal do
mundo onde isso acontece.
Leonardo Boff - É onde a mesma instância acusa, a mesma instância
julga, a mesma instância pune.
Marina Amaral - Não pode pedir perdão...
Leonardo Boff - Não, não.
Frei Betto - Não pode se defender; não pode constituir advogado.
Leonardo Boff - Não pode ter advogado, aliás, existe advogado, mas
você não conhece. Você tem um advogado chamado advocatus proautore, que
você não conhece, que junto aos cardeais faz o advogado do diabo, toma a
minha defesa, mas não pode conversar comigo, nem sei quem é.
Sérgio Pinto - Você pode falar ali?
Leonardo Boff - Não. Só responder. E você não tem acesso às atas,
não sabe quem são os acusadores. Só conhece algumas perguntas, o cardeal é
que tem todo o material, extenso, que é o documentário dele.
Sérgio de Souza - Continuando a história, você senta na cadeirinha...
Leonardo Boff - Antes eu faço aquela homenagem...
João Noro - Você respondia às perguntas em latim ou italiano?
Leonardo Boff - O cardeal perguntou: "Você quer em alemão, espanhol
ou italiano?" Respondi: "Olha, cardeal, em alemão o senhor é forte porque
o senhor é alemão, então vou pedir em espanhol porque o senhor é mais
fraco". (risos) Tudo era guerra ali, tudo era jogo limpo. Então falamos em
espanhol, embora ele tivesse o texto em alemão, italiano, espanhol e
português. Ele disse: "Se você quiser fazer um debate livre, o notário
anota tudo, para não ficarmos três dias aqui. Você pode deixar que eu
pergunto, então você responde. Ou você pode pegar o teu escrito e
segui-lo". "Prefiro seguir o meu escrito." "Não, é muito comprido." Eram
sessenta páginas. "Vamos selecionar algumas questões, o resto os cardeais
vão julgar o texto como um todo." E logo acrescentou: "A minha função aqui
não é julgar você, nem interrogá-lo, é escutar o que você diz e ver se
está conforme a fé cristã ou não." "Mas na base de qual critério?" "A
minha função é esta, de ter os critérios." Ele é que decide, você está
entregue ao arbítrio.
Leo Gilson - Isso me lembra Alice no País das Maravilhas, em que a
rainha diz: "Primeiro cortem-lhe a cabeça, depois vamos julgar".
Leonardo Boff - A verdade é que você sente que não tem nenhuma
proteção, nem jurídica, nem humana, e que está entregue ao arbítrio. Que
na Igreja não funciona nem a lei divina – que eles interpretam como querem
–, nem a lei humana, que eles não aceitam. É o arbítrio do príncipe, que é
o papa que quer assim, do cardeal que quer assim.
Sérgio Pinto - Quanto tempo durou a sessão?
Leonardo Boff - Os nossos dois cardeais do Brasil quiseram
participar de todo jeito, e o cardeal Ratzinger negou: "Absolutamente".
Então eles foram ao papa e o papa fez o jogo salomônico: "O tribunal terá
duas partes, na primeira só o Ratzinger com o Boff e na segunda só os
cardeais". Então me submeti àquele diálogo de uma hora e meia e houve uma
pausa para o café. E o curioso é que foi naquela sala enorme, o cafezinho
lá no canto e os funcionários correndo pra me pedir autógrafo e o cardeal
furioso: "Ele é condenado, ele é condenado!" (risos) Bom, depois da pausa
para o café, vieram os cardeais. E aí dom Paulo foi terrível, porque quase
não deixava o Ratzinger falar: descobriram que foram colegas de estudo
quando eram estudantes de doutorado em Munique, trocaram idéias sobre os
professores que morreram ou não. Três dias antes havia saído um documento
condenando a Teologia da Libertação, então, no momento apropriado, dom
Paulo disse para o cardeal: "Cardeal Ratzinger, lemos o documento e ele é
muito ruim. Não o aceitamos porque não vemos os nossos teólogos dizendo e
pensando o que o senhor diz da Teologia da Libertação. Inclusive, queremos
sugerir que o senhor os chame para elaborar um documento e depois vocês o
completam. Se quero construir uma ponte, chamo um engenheiro, e o senhor,
para construir a ponte, chamou um gramático, que não entende nada de
engenharia. Então, não aceitamos este, queremos um segundo documento". E
acrescentou: "Boff, você está aí com o seu irmão, o Gustavo Gutierrez,
amanhã vocês já sentam juntos e fazem um esquema". De fato, fizemos o
esquema e levamos ao Santo Ofício.
Leo Gilson - Você poderia definir claramente para o leigo o que é a
Teologia da Libertação?
Leonardo Boff - E aí então a discussão foi sobre a Teologia da
Libertação, não mais sobre mim. A crítica do cardeal se baseava no
seguinte: "O teu livro é protestante, quem fala assim são os protestantes,
eles não são como os católicos". Eu digo: "Absolutamente, é o lado
evangélico do protestantismo, e temos muito o que aprender com Lutero.
Então, não aceito que seja o lado protestante, é o lado são da teologia,
que percebe o excesso, o abuso de poder da Igreja, a soberba, e pertence à
teologia ter uma palavra crítica sobre isso. E há uma tradição profética.
A gente, quando é batizado, é batizado para ser profeta, além de
sacerdote. Ninguém lembra de ser profeta na Igreja. Os profetas se
confrontam com o poder". E se discutiu Teologia da Libertação. A
insistência dos nossos dois cardeais era que se fizesse um documento nas
igrejas onde se vive uma prática de Teologia da Libertação com pobres e
comunidades. Dom Paulo disse ao Ratzinger: "Se o senhor quiser, preparo
tudo em São Paulo, o senhor vai conhecer as periferias, vai com os agentes
da pastoral e, depois de ver tudo isso, vamos sentar e falar sobre a
Teologia da Libertação, porque, se o senhor não vir isso, não vai entender
os teólogos". O cardeal respondeu: "Temos obrigações com a Igreja
universal, não podemos fazer partido na Igreja local. Somos responsáveis
por todas as igrejas, nossa sede de pensamento é aqui". Aí me levantei e
disse: "Cardeal, por favor, olhe esta janela, toda de ferro quadriculado.
Atrás dessa janela de ferro quadriculado não se faz Teologia da
Libertação, porque o mundo já vem traduzido nessa quadratura. Tem de
sentir na pele uma experiência de pobreza, porque daí nasce a teologia
como o grito dos pobres". A Teologia da Libertação é um grande esforço de
uma parte dos cristãos de fazer do Evangelho e da fé cristã um fator de
mobilização social.
Carlos Moraes - Começou quando?
Leonardo Boff - Começou com o pessoal do frei Betto, nos anos 60, com
a JUC, com a AP, com aqueles cristãos que militavam... Pra mim, a chave da
Teologia da Libertação é o seu método, que a maioria esquece nessa
discussão, que é o de arrancar, não de uma encíclica, de uma página da
Bíblia, de um credo qualquer da tradição, mas partir dos desafios da
realidade, quais são as questões que os pobres levantam, que o Brasil
suscita hoje. As comunidades de base com seus movimentos sociais por casa,
por terra, por saúde, por alfabetização, arrancar disso e, junto com a
organização do povo, com a consciência que ele vai desenvolvendo, dizer
como os cristãos podem dar um primeiro impulso nisso, o cristianismo como
força que dá clareza, que dá motivação pra gente se empenhar pela justiça,
pela transformação, porque a gente é herdeiro de alguém que foi
prisioneiro político, que morreu na cruz e não velho na cama, que é Jesus.
Então, é resgatar essa dimensão, essa densidade histórica, um sentido
público, político. A Teologia da Libertação se articula com quem já está
dando uma caminhada e tenta pensar a partir da prática. Por exemplo, o
pessoal está lutando por terra, eu digo: "Vai ocupar uma terra aí". Então,
os cristãos se reúnem e começam primeiro a ler o Êxodo, o povo que está no
exílio sem terra, e quer a Terra Prometida. E eles dizem: "Não está em
nenhum lugar da Bíblia que Deus deu a terra e a escritura para alguém, a
terra é de todos, e Deus, o Senhor disso tudo". Então, quando vão
conquistar a terra, o que significa? Que queremos trabalhar a terra para
ter saúde, comida, a nossa casa. O sem-terra começa a pensar essa
realidade e vê que o que temos é o contrário. A terra está na mão de
alguns, impede a vida, impede a justiça, traz doença. Então temos de
conquistar isso.
Sérgio Pinto - Não existia nada semelhante no mundo?
Leonardo Boff - Existia na Colômbia, no México, uma coisa até
filosoficamente interessante, porque, de repente, em toda a América Latina
emergiu esse pensamento libertário, com Paulo Freire, Fernando Henrique
Cardoso, com Camilo Torres, na medicina, na pedagogia, na sociologia e na
teologia.
Sérgio Pinto - Uma coisa simultânea, vai brotando...
Leonardo Boff - Simultânea. É aquilo que Hegel fala, do velho geist,
o espírito do mundo, que de repente emerge em todas as instâncias e não há
quem detenha. E a gente, que participou do nascimento disso, a gente
sentia que era envolvido por uma força que nos transcendia. E percebemos
que o discurso que está aí tem de mudar, tem de ser outro, porque a
realidade mudou. A libertação tem de ser articulada de uma maneira mais
holística, mais ampla, tem de envolver a terra, tem de envolver ecologia,
todo mundo está empobrecido, somos vítimas do paradigma ocidental, que
está destruindo os povos, as classes, a natureza e a qualidade de vida, e
a libertação hoje tem de ter uma dimensão planetária, não só dos pobres.
Leo Gilson - Estamos voltando a uma concepção de Hobbes, da humanidade.
Leonardo Boff - É que descobrimos que as famosas forças produtivas
são forças altamente destrutivas. É aquilo que Marx diz na quarta parte do
primeiro livro O Capital, uma coisa profética, a que estamos assistindo
hoje: que a lógica do capital leva-o a destruir as duas pilastras sobre as
quais ele se constrói, que é a força de trabalho, dispensando-a pela
automação, e a natureza, com seus recursos se exaurindo.
Carlos Moraes - Como você vê o futuro da Igreja nessa dobrada do
milênio? Comunidades de base contra Ratzinger-Santo Ofício? Pode haver uma
absorção difícil ou pode haver dissidência, uma nova Igreja?
Leonardo Boff - A Igreja hoje é uma Igreja partida, dividida, e há
dois modelos em conflito, que é o da Igreja-instituição, da
Igreja-hierarquia, da Igreja-poder, que se estrutura em papa, cardeais,
bispos, dioceses, paróquias e se reproduz com muita dificuldade, porque há
cada vez menos padres para manter a reprodução dessa Igreja. Junto dela
está surgindo um novo tipo de Igreja, que eu chamaria
Igreja-rede-de-comunidades, que está assentada não no poder, mas na vida.
Isto é, o diálogo fé/vida. Nas comunidades, nas associações de moradores,
grupos que vivem a fé nos seus encontros e que têm sua força no arquétipo
cristão, não na instituição, nas suas tradições, mas o cristianismo como
uma instância de esperança, tendo como referência comum a Bíblia, e aberta
para a sociedade. Mas não a sociedade portadora de poder de decisão, o
pacto velho, quer dizer, a Igreja poder religioso se associa com o poder
civil. Não, é a Igreja com as classes emergentes, com os destituídos,
pobres, marginalizados, excluídos, que são a grande maioria. Então, pra
mim, está se dando aí um novo pacto do cristianismo, no sentido dos
primórdios, que era feito de escravos, de portuários, de destituídos, de
soldados, e estamos vivendo esse tipo de cristianismo, que tem hoje uma
dimensão mundial. Muito forte na África, na Ásia, muito forte no Primeiro
Mundo: você vai à Alemanha, Itália, Estados Unidos, está cheio de grupos e
comunidades do Terceiro Mundo que têm como referência a perspectiva
libertária do cristianismo. A outra é o cristianismo da reprodução e é
ocidental. É produto da cultura ocidental, de tal forma que não dá pra
fazer a história do poder do Ocidente, reis e príncipes, sem fazer
simultaneamente a história da Igreja.
Sérgio Pinto - Queria voltar ao julgamento do Vaticano e perguntar o
seguinte: se você já sabia previamente da opressão daquela cena, já sabia
que não teria advogado, direito a voz, a nada, já sabia da condenação, pra
que fazer? Pra continuar dentro no sentido de registrar, marcar presença?
Leonardo Boff - Fiz um juízo político, não pessoal. Uma coisa é
você defender a sua biografia, romper e seguir seu caminho. Como todo o
nosso grupo, o Betto inclusive, era de intelectuais orgânicos das CEBs, e
tínhamos naquela época hegemonia na Igreja – quem dava o discurso tinha
grande articulação, se movimentava na sociedade, era essa Igreja da base,
que era uma coligação de uma série de bispos e cardeais que apoiavam as
CEBs, e as CEBs acolhiam esses tipo de Igreja. Então, a minha preocupação
era: o fundamental é preservar esse ensaio da Igreja da base e não a minha
biografia.
Sérgio Pinto - Quer dizer, era uma militância mesmo...
Leonardo Boff - Militância. Uma coisa bem pensada, em termos até de
"até onde eu agüento sem perder a minha dignidade" e trazer um ganho pra
essa Igreja da base. Então seria ruim eu romper com o Vaticano, e o
Vaticano queria isso, porque seria fácil condenar e excluir, excomungar, e
o povo diz: "Olha, assassino, ladrão, tudo bem, mas excomungado não.
Porque a pior coisa que existe é ser entregue a Satanás direto, sabe?
Então, a excomunhão é uma sombra terrível, um estigma fantástico. E, como
senti o apoio explícito da CNBB e da própria ordem franciscana, fui ao
diálogo com o Ratzinger levando duas maletas contendo 100.000 subscrições,
do mundo inteiro, desde a Sibéria, Coréia, bispos, milhares de cristãos.
E, quando comecei, disse: "Cardeal, não estou sozinho aqui, estou com
estes 100.000". "Vocês é que manipularam assinaturas!" "Como, manipularam?
Um bispo que é lá da cidade de Zagorsky, na Rússia, como é que vai ter
contato comigo?" Quer dizer, a Teologia da Libertação não era causa minha,
é a causa de uma geração, é um movimento. E saí convencido, devido à
influência dos dois cardeais que me acompanharam, que o problema
terminaria ali. E qual não foi a minha surpresa quando, no dia 1¼ de maio,
todo paramentado para entrar na missa dos trabalhadores em Petrópolis,
toca o telefone, era do Vaticano. Atendo e dizem: "Você se considere
imediatamente demitido da cátedra de teologia, deposto da Revista
Eclesiástica Brasileira, da coordenação editorial da Vozes, não pode mais
falar, viajar, nem dar aula. Esta é a punição". Eu disse: "Então apelo ao
direito canônico. Só entro na punição quando tiver os documentos na mão,
porque oral não vale". "Então, os documentos seguirão." E desligaram. Aí
vieram os documentos.
Chico Vasconcellos - Nesses momentos todos, na sua cabeça não voltam as
palavras do velho Mansueto, que dizia que o clero só era bom enforcado?
Leonardo Boff - Vou dizer com muita sinceridade: minha grande
decepção não foi a luta ideológica, de teologias, argumentos e
contra-argumentos. A minha decepção profunda, que me amadureceu de certa
maneira, foi ver que eles mentem. Por exemplo, chego em Roma, o cardeal
Ratzinger dá uma entrevista e diz: "Boff não veio para cá convocado. Veio
porque solicitou julgamento". Aí telefonei pra ele: "Ou o senhor desmente
isso ou pego o avião amanhã e volto para o Brasil, porque discutimos a
data, a carta, o senhor mandou a passagem – que eu não viria se vocês não
pagassem a passagem –, tudo isso foi feito. Agora, o senhor diz que me
apresentei, solicitei um julgamento". Então, ele escreve lá: "Pontualizacione
sur por causa est". Não diz "desmentido", diz pontualizacione. Ele diz:
"De fato, em dia tal seguiu carta, acertamos dia tal...". E aí, antes de
começar o diálogo, andando com ele, eu disse: "Cardeal, quero que o senhor
diga pra mim aqui, não na imprensa, se o senhor deu aquela declaração".
"Não, a imprensa inventa." Saiu no Osservatore Romano!
Frei Betto - O "diário oficial".
Leonardo Boff - Então foi uma profunda decepção, ver que eles
manipulam. Depois, um grande vaticanólogo, o Santini (na ocasião, me
articulei com os jornalistas que cobrem o Vaticano e são chamados
vaticanólogos e que, pelo menos, são bons teólogos, sabem tudo do
Vaticano), me disse: "Olhe, nós temos..." – deu uma cifra altíssima, acho
que 300 milhões de liras – "para comprar documentos do Vaticano,
documentos secretos, pra gente dar o furo". E eu, numa dessas disputas com
aquele cardeal, o Jerome Hamer, tinha dito: "Vocês são corruptos, vocês
vendem documentos". "Tem de provar, isso é uma injúria, você tem de
provar!" E eu: "Então chamo o Santini aqui, ele tem 300 milhões de
liras...". Ele disse: "Infelizmente temos funcionários que só fazem
isso...".
Chico Vasconcelos - Você fala que a Igreja mente, que ela é corrupta...
Leonardo Boff - Ela mente, é corrupta, é cruel e sem piedade. Ela pega
alguém e vai até o fim. Antes de eu receber aquela condenação no 1¼ de
maio, uns quinze dias antes, veio o representante do núncio a Petrópolis,
junto com o bispo de Petrópolis, paramentados oficialmente, e me
entregaram um livreto publicado pela Poliglota Vaticano Livrino, onde era
feito o juízo do meu livro. Me entregaram oficialmente, me deram meia hora
pra ler e dar a resposta e foram para a igreja ao lado, rezar. Fiquei
lendo. Meia hora depois, eles vieram, eu disse: "Li, concordo porque
também rejeito todas essas teorias". "Mas são suas!" "Absolutamente, isso
não é meu, eu concordo, tudo bem." O núncio diz: "Graças a Deus, com um
teólogo assim podemos trabalhar". Eu digo: "Por quê?" "Se você tivesse
feito como o Küng, dizendo não, ligaria daqui mesmo para o Vaticano e você
receberia todas as punições canônicas." Aceitei o texto, tudo bem, o texto
vai ser publicado e termina ali. Daí a surpresa quando quinze dias depois
vêm as punições todas. Quer dizer, não bastou eu me submeter ao processo,
acolher a condenação do livro de uma forma oficial – e com a promessa de
que nas próximas edições iria fazer rodapés corrigindo, moderando a
linguagem –, e eles ainda vêm e aplicam outras punições, quer dizer, é
abuso, é excesso de rigor. Me submeteram, ganharam e, ainda por cima, me
espezinham. E aí me submeti àquele silêncio, que provocou uma grande crise
em Roma porque o dom Ivo, que era presidente da CNBB, recebeu uma
infinidade de telegramas do mundo inteiro, de protesto, e o argumento era:
"O Vaticano fez aquilo que os militares faziam, isso é um escândalo!"
Frei Betto - No programa Roda Viva, da TV Cultura, ouvi um jornalista
dizer: "Mas porque agora você não está mais na Igreja..." Na verdade, você
continua na Igreja.
Leonardo Boff - Tem de ser mais formal aí. A Igreja
fundamentalmente é essa comunidade de fiéis, comunidade organizada,
portanto tem o seu governo, sua hierarquia. E eu pertencia, nessa
comunidade, ao lado hierárquico, era padre. Padre e teólogo. Então
renunciei a uma função hierárquica na Igreja, deixei de ser padre...
Frei Betto - Deixou de ser franciscano, da ordem...
Leonardo Boff - É. Deixei de ser franciscano porque está ligado aos
dois, se deixei de ser padre, deixei de ser franciscano. E voltei ao mundo
de Jesus Cristo, porque Jesus foi leigo, não foi padre.
Carlos Moraes - Você formalizou esse desligamento?
Leonardo Boff - Engraçado, encaminhei os papéis e o Vaticano até
hoje não me respondeu. Então, oficialmente, posso entrar em qualquer
igreja, celebrar, pregar, casar, quer dizer, foi um desligamento
unilateral. Em 1992, durante a Eco, veio o geral da ordem, instruído pelo
Vaticano, dizendo: "Até agora, a ordem ajudou você, agora você tem de
ajudar a ordem. Então, tem de deixar de dar aula, de escrever, de viajar,
de dar entrevistas, de publicar". Eu: "Como? Já fiz isso antes, não faço
mais. Antes podia ser humildade, aqui é humilhação, não aceito isso".
"Você pode escolher qualquer lugar da ordem, qualquer convento, que a
ordem está no mundo inteiro..." "Isso não aceito." Então, durante toda a
tarde, elaboramos alternativas para eu poder continuar fazendo alguma
coisa. Disse a ele: "Teólogo tem só a palavra como comunicação, falada e
escrita. Se você tira dele a palavra, ele é uma pessoa nula. Os direitos
humanos, a luta do Brasil para conquistar uma democracia, a Igreja ajudou
a resgatar essa liberdade e vocês querem impô-la, não aceito". Então, ele
se comunicou com alguém e me disse: "Não tem alternativa, você pode
escolher qualquer lugar". "Se eu for para a Coréia, para as Filipinas,
naquela lonjura, outras línguas, posso ensinar, escrever?" "Não, não pode,
tem de se submeter totalmente." Então eu disse: "Eu mudo pra continuar o
mesmo. Não aceito e vou sair, como protesto". E aí discutimos "como vamos
fazer". A gente ia esperar – era julho, durante a Eco 92 – para avisar os
amigos, bispos etc., e não produzir um impacto assim na Igreja. Mas,
nisso, a Folha de S. Paulo descobriu, porque a gente teve essa discussão
toda, bem franciscana, comendo pizza num restaurante e tinha jornalista
perto. Um deles, que pegou o fio da meada, me disse depois: "Boff, sei de
tudo. Você decidiu sair e vou publicar amanhã na Folha". |
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